terça-feira, 10 de maio de 2016

A NOÇÃO DE CULTURA E A IDEIA DE CULTURA DE MASSA


O objetivo é refletir sobre a importância da cultura na vida social, a ideia de cultura de massa e também entender que a transmissão cultural se dá por meio da linguagem.
A transmissão cultural e a linguagem
O homem só existe como ser cultural. É a cultura que nos humaniza. Não é a inserção em grupos que nos distingue dos outros animais, pois todos já puderam observar que os animais, de forma geral, vivem, na sua maioria, imersos em grupos. Logo, embora vivam em sociedade, não desenvolvem cultura.
“Independentemente da espécie a que pertencem, as abelhas organizam-se em grupos. Nestes, cada abelha possui regras e atividades específicas. Abelhas de uma mesma espécie, contudo, relacionam-se sempre da mesma maneira com o meio ambiente. Seu comportamento se altera apenas quando há alterações no ambiente que a cerca. Caso não haja alterações neste, tampouco há alterações no comportamento das abelhas. Desta forma, pode-se dizer que elas se adaptam ao meio ambiente, ou às alterações que nele ocorrem, mas não o transformam. A capacidade de transformar o próprio comportamento e a natureza é própria do ser humano”.
Entre as abelhas existe sociedade, mas não cultura. As abelhas ordenam-se coletivamente e pode haver divisão do trabalho, sexo e idade. Mas não há cultura, pois não há tradição viva, elaborada de geração para geração, que permita tornar única e singular uma dada sociedade. Uma tradição viva nada mais é do que um conjunto de escolhas. Ter tradição não significa viver sob determinadas regras – afinal, os animais também vivem sob regras. Ter tradição significa viver conscientemente sob tais regras. Sob determinadas circunstâncias, os animais vão sempre agir e reagir da mesma forma. Se eles mudam suas regras, o fazem, portanto, como reação às mudanças ocorridas no meio. Já com o homem não acontece o mesmo.
A cada grupo humano corresponde uma tradição cultural. Por exemplo, não há como mostrar uma casa e dizer que se trata de uma casa tipicamente humana, como se ela representasse todas as casas humanas. Entretanto, pode-se tomar qualquer casa de joão-de-barro e dizer que é uma casa típica de joão-de-barro – não interessa se do Brasil ou de qualquer outro lugar. Isso significa que os animais não produzem tradições que os diferenciem.
O papel da linguagem na transmissão cultural e os meios de comunicação de massa
Como vivemos em sociedade, não é possível deixar de lembrar que não há cultura individual e que toda cultura é socialmente partilhada. O homem, ao nascer, é absolutamente frágil, um dos seres mais frágeis que existem. Assim como outros mamíferos, ele precisa que alguém lhe dê água, comida, abrigo e que cuide de sua higiene.
Mas, ao contrário do que ocorre com os outros animais, pode-se ensinar praticamente tudo a um ser humano já na primeira infância. Assim, um bebê nascido no Brasil e criado por outra família na China vai agir falar e pensar de acordo com os hábitos culturais da família que o adotou. Ele poderá não gostar de arroz com feijão e ter dificuldade de pronunciar palavras da língua portuguesa, caso algum dia retorne para cá. Ele pensará como um chinês e falará como tal. Provavelmente gostará de comidas que, para o paladar brasileiro, são consideradas inadmissíveis, como escorpiões e certos tipos de insetos. Certamente terá maior facilidade em comer com fachis (em japonês, hashis, os “palitos” que muitos povos asiáticos utilizam para se alimentar). Enfim, agirá e pensará como um chinês, embora tenha nascido de pais brasileiros. O mesmo não ocorre com os animais. Um gato, por exemplo, pode até ser criado com uma família de cachorros, mas nunca latirá. Isso porque seu comportamento é regido muito mais pelos instintos.
E o ser humano, o que rege o nosso comportamento? O comportamento do homem é regido por padrões culturalmente transmitidos pela linguagem. Logo, para os seres humanos, a linguagem tem papel importantíssimo na apreensão dos conteúdos simbólicos, pois é por meio dela que nos tornamos seres humanos. É por intermédio dela que os padrões culturais são transmitidos por meio de símbolos e sinais. E na nossa sociedade existem vários mecanismos de transmissão cultural. “Alguns grupos dos quais fazemos parte são importantes mecanismos de transmissão cultural, como a família, os amigos, o trabalho, a vizinhança, a escola, entre outros. Outros mecanismos de transmissão cultural são os meios de comunicação, como a televisão, o rádio, a internet, os jornais, além dos livros, das obras de arte, dos brinquedos, entre muitos outros. ”
Se a linguagem é essencial na transmissão cultural, cada vez mais na nossa sociedade ela é transmitida pelos meios de comunicação de massa. Por meio deles compreendemos o que se passa na sociedade e como devemos agir socialmente.
Cultura versus cultura de massa
Vocês já relembraram que o ser humano é um ser cultural. Agora vamos discutirmos a ideia de cultura de massa. Afinal, muitos são os que falam em cultura de massa para explicar o status da cultura nas sociedades que passaram pelo processo de industrialização. Mas será que isso é correto? Para refletir sobre esse ponto, vamos analisar e discutir sobre os diferentes significados do termo “massa”. Há diversas conotações para esse termo em nossa sociedade. Os sociólogos não concordam entre si sobre o seu significado e muito menos quanto à sua conotação. De forma geral, usam a palavra “massa” para designar um grande número de pessoas, heterogêneas quanto à origem social e geográfica, e indiferenciadas entre si quanto a normas de comportamento e valores. O termo, às vezes, é usado de forma positiva e, em outras, de forma negativa. Tanto pode ser usado para referir-se ao conjunto da população, quando as pessoas falam, por exemplo, “naquela partida de futebol havia uma massa humana imensa”, como para referir-se aos grupos populares, como em “a esgrima não é um esporte para todos, não é um esporte para a massa” (CUCHE, 2002, p. 158). De qualquer maneira, deve-se ter muito cuidado ao falar em cultura de massa, pois esse termo pode passar a ideia de que existiria uma cultura da maioria da população, uma cultura de massa, e outro tipo de cultura, partilhada por poucos. Muitos autores não trabalham mais com a divisão entre cultura popular (entendida como cultura do povo, da maioria da população) e cultura erudita (uma cultura partilhada por membros da elite), pois ela dá a entender que a maioria das pessoas seria dotada de hábitos tão diferentes de outras parcelas da população que acabariam constituindo entre si uma cultura própria. De modo geral, acredita-se que haja uma cultura partilhada e que os diferentes segmentos que a compõem se inserem de forma distinta numa mesma cultura partilhada por todos. O que ocorre é que cada segmento possui um lugar próprio dentro de uma cultura partilhada por todos.
O termo “massa” é utilizado para designar tanto o conjunto da população como a parte mais popular e, por vezes, a mais pobre dessa população. Confunde-se cultura para as massas e cultura de massa. Uma grande massa de indivíduos recebe uma mesma mensagem, mas isso não quer dizer que todos a compreendam igualmente (CUCHE, 2002, p. 158). A mensagem veiculada pelos meios de comunicação de massa dirige-se a grandes parcelas da população, porém, seria ingênuo acreditar que todos a entendam de forma idêntica.
“Eles [a “massa”] se apropriam deles [programas de televisão], reinterpretam-nos segundo suas próprias lógicas culturais. Uma série de televisão como Dallas, que obteve um sucesso quase mundial, até nas favelas de Lima, no Peru, ou nas aldeias saarianas de Argélia, não foi compreendida da mesma maneira nem assistida pelas mesmas razões em todos os lugares, em todos os meios sociais. Por mais “padronizado” que seja o produto de uma emissão, sua recepção não pode ser uniforme e depende muito das particularidades culturais de cada grupo, bem como da situação que cada grupo vive no momento da recepção. ” CUCHE, Dennys. A noção de cultura nas Ciências Sociais. 2 ed. Bauru: Edusc, 2002. p. 159-160.
Quando um produto é lançado no mercado, isso não significa que ele será, de imediato, consumido em larga escala e que todos, independentemente de sua idade, sexo ou grupo social ao qual pertençam, o aceitarão sem restrições. Um bom exemplo é o do telefone. Hoje visto como equipamento essencial para a maioria das pessoas, quando surgiu, no final do século XIX, não foi tão bem-visto.
“Hoje, o telefone é um importante meio de comunicação. Ele sofisticou-se e transformou-se no telefone celular. Milhões de equipamentos são fabricados e vendidos, todos os anos, para os mais diferentes países. Além disso, são muito cobiçados, pois novos modelos surgem diariamente. Entretanto, sua história não foi sempre assim, repleta de triunfos e aceitação. Quando o telefone surgiu, não foi bem-aceito em muitos lugares. Ao que parece, era visto como um intruso no espaço privado. Numa época marcada pela formalidade, em que era inconcebível que as pessoas se visitassem sem convite ou agendamento prévio, esse aparelho que toca sem hora marcada incomodava porque invadia a privacidade. Afinal, podia tocar nos momentos mais improváveis. Como nas casas abastadas quem atendia a campainha eram os empregados, até o ato de se levantar para atendê-lo não era bem-visto pelos membros da elite, pois parecia um gesto servil. Logo, para que essa invenção se tornasse um meio de comunicação de massa aceito por todos, foram necessárias várias décadas.
1.       Por que o homem só existe como ser cultural?
2.       Por que entre as abelhas existe sociedade, mas não cultura?
3.       Como vai agir falar e pensar um bebê nascido no Brasil e criado por outra família na China. Explique.
4.       O que rege o nosso comportamento?
5.        Explique cultura e cultura de massa. De exemplos.
6.       Assistir e fazer o resumo da palestra do professor da USP, Clóvis de Barros Filho - Felicidade: https://www.youtube.com/watch?v=rgWrovpS9PE
7.       Responder da página 42 a 51 do caderno do aluno.

Prof. Manoelito

INTRODUÇÃO À TEORIA DO INDIVIDUO


O objetivo deste tema é desenvolver uma reflexão ética a respeito da ação e conceituação do indivíduo. Para isso, apresentaremos o pensamento de John Locke e dos filósofos utilitaristas, Jeremy Bentham e John Stuart Mill.
Com base em um entendimento comum da nossa condição de indivíduos, vamos refletir sobre a convivência. Cada indivíduo é único e tem suas particularidades, historicamente temos ampliado a necessidade de buscar liberdade, autonomia para realizar sonhos, desejos e fazer valer interesses. Mas como realizar as necessidades e os desejos individuais na convivência com os outros que trazem consigo os próprios desejos e necessidades? Com a valorização da subjetividade e com a elevação dos valores individuais, tornou-se importante justificar e argumentar acerca do indivíduo e da convivência. Afinal, o que leva o indivíduo a se organizar em sociedade?
O contrato – John Locke
Para aprofundarmos o tema, vamos refletir sobre os “homens das cavernas”: Que ideia geralmente se tem sobre eles? Na maioria dos casos, são apenas imagens estereotipadas, que os caracterizam como “violentos e brutos, preocupados apenas em satisfazer, imediatamente, seus desejos”. Mas, será que existem outras abordagens sobre os homens das cavernas? Para John Locke, assim como para outros pensadores como Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau, os homens, antes de se organizarem em sociedade, viviam em uma situação chamada “estado de natureza”. A hipótese de um período originário como esse tem o sentido de auxiliar a refletir sobre os motivos que levaram os homens a se organizar e viver em sociedade. Locke entendia que, para compreender o poder político, deveríamos refletir sobre as motivações que teriam levado os homens a sair do estado de natureza e passar a viver em sociedade com a organização de governos e leis para regular suas relações.
Segundo Locke, no estado de natureza os homens eram livres e, dessa forma, não dependiam de outros homens para conduzir a própria vida. Todos eram iguais, pois nenhum possuía nada a mais que outro, recebendo todos as mesmas vantagens da natureza e as mesmas faculdades. No estado de natureza, para Locke, os homens vivem em situação de paz. Porém, quando um homem procura submeter outro à sua vontade, instala-se o estado de guerra que só pode ser amenizado e/ou evitado com a adesão de todos os homens a um contrato. Dessa forma, os governos são criados pelos homens para que a vida e a liberdade sejam garantidas. Contudo, se os governos falham nessa missão, os homens, segundo Locke, podem se revoltar. Na qualidade de livres por natureza, podem contestar um governo injusto e não são obrigados a acatar as suas decisões.
Do estado de natureza “Para compreender corretamente o poder político e deduzi-lo a partir de sua origem, devemos considerar em qual estado se encontram naturalmente todos os homens, ou seja, um estado de liberdade perfeita para ordenar suas ações e regular suas posses e pessoas como acharem conveniente, dentro dos limites da lei da natureza, sem necessidade de pedir permissão ou depender da vontade de outro homem.
Um estado, também, de igualdade, no qual todo poder e justiça são recíprocos, sem que um tenha mais do que outro; evidentemente, seres da mesma espécie e posição, nascidos aleatoriamente para usufruir de todos os benefícios da natureza e do uso das mesmas faculdades, devem também ser iguais entre si, sem que haja subordinação ou sujeição, exceto quando o senhor e mestre de todos eles expresse seu desejo por meio da declaração de sua vontade de colocar um acima do outro e conferir ao primeiro, por meio de uma designação clara e evidente, o direito ao domínio e à soberania.”[...]
Do estado de guerra [...] “E, portanto, aquele que tentar submeter outro homem ao seu poder absoluto coloca-se, dessa forma, em estado de guerra com esse homem. Essa atitude deve assim ser entendida como uma declaração de que visa a controlar sua vida. Pois tenho razão em concluir que aquele que me subjuga em seu poder, sem meu consentimento, faria uso de mim como desejasse quando me encontrasse sob seu poder e também iria me destruir quando assim desejasse fazê-lo, pois ninguém pode desejar subjugar-me a seu poder absoluto, exceto para forçar-me a fazer algo que é contra meu direito de liberdade, isto é, fazer de mim um escravo.
Estar livre de tal força é a única garantia de minha preservação e a razão faz-me percebê-lo como um inimigo de minha preservação, alguém que me privaria daquela liberdade que protege tal preservação; logo, aquele que tentar escravizar-me irá colocar-se, dessa forma, em estado de guerra comigo. Aquele que, no estado de natureza, retirasse a liberdade que pertence a qualquer um em tal estado deve necessariamente ser considerado como possuidor de um desejo de retirar todas as demais coisas, já que a liberdade é o alicerce de tudo o que existe. Tal como aquele que no estado de sociedade retirasse a liberdade pertencente aos membros daquela sociedade ou do bem comum deve ser considerado como alguém que deseja tirar deles tudo o que resta, e assim ser visto como em estado de guerra. ” [...]
Da propriedade [...] “Apesar de a terra e todas as demais criaturas serem comuns a todos os homens, cada homem possui uma propriedade sobre sua própria pessoa. A ela, ninguém tem direito, exceto ele próprio. O trabalho de seu corpo e a criação de suas mãos, podemos dizer, são apropriadamente seus. Qualquer coisa que ele retire do estado em que a natureza a tenha criado e dessa forma deixado revela a mescla de seu esforço a tal coisa, transformando-a em algo que agora lhe pertence, tornando-a assim sua propriedade. Por ter sido retirada do estado comum no qual a natureza a colocou e porque algo foi adicionado a tal coisa por meio do trabalho, isso exclui o direito comum de outros homens. Por ser tal esforço de propriedade inquestionável de seu executor, nenhum homem além dele pode ter direito ao que ele criou, ao menos enquanto houver o bastante e enquanto boas condições forem deixadas em comum para outros homens. ” L0CKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil.
Direito natural e direito positivo - Direito natural e direito positivo. Esses dois conceitos são fundamentais para a sua formação cidadã. O direito natural seria uma derivação da razão correta, assim como a natureza tem suas leis, o homem também teria, por natureza, as suas. Já o direito positivo seria o conjunto de leis que os homens criam para conviver em sociedade. Em Locke, a liberdade, a propriedade e a vida são constitutivos do direito natural de cada indivíduo. No entanto, para mantê-lo, o homem precisa conviver com outros que têm o mesmo direito natural; então, para que o convívio seja possível, os homens necessitam produzir leis positivas – no sentido de inventá-las – para manutenção desses mesmos direitos naturais. Assim, com base no direito natural de cada um, cria-se o direito positivo a que todos têm de obedecer.
Na filosofia de John Locke, há a valorização do indivíduo como agente histórico e jurídico. Por isso, toda ação depende necessariamente do indivíduo. O tipo de governo que ele deixa existir, o tipo de relações sociais sob as quais viverá, o conhecimento que deverá produzir; enfim, sua felicidade ou tristeza não competem mais ao rei ou ao senhor feudal, mas somente ao indivíduo.
O indivíduo utilitaristaBentham - Aqui, trataremos do indivíduo concebido pelo utilitarismo, que se diferencia do indivíduo pensado por Locke. Para isso, vamos ler um excerto de Bentham.
“I. [...] Prazeres e dores são instrumentos com os quais o legislador tem de trabalhar: é necessário, assim, que ele compreenda sua força, o que significa, novamente, conhecer seu valor.
I I. Para um indivíduo considerando a si mesmo, o valor do prazer ou da dor considerados em si mesmos será maior ou menor, de acordo com as seguintes quatro circunstâncias: 1. Sua intensidade. 2. Sua duração. 3. Sua certeza ou incerteza. 4. Sua proximidade ou distanciamento.
I II. Essas são as circunstâncias que devem ser levadas em conta quando se estima prazer ou dor considerados em si mesmos separadamente.
 Mas quando o valor de um prazer ou uma dor é considerado com o propósito de estimar a tendência de qualquer ato pelo qual é produzido, existem duas outras circunstâncias que devem ser observadas.
São elas: 5.  Sua fecundidade, ou a possibilidade de ser seguida por sensações do mesmo tipo, ou seja, prazeres, no caso de um prazer, dores, no caso de uma dor. 6. Sua pureza, ou a possibilidade de não ser seguida por sensações do tipo oposto, ou seja, dores no caso de um prazer, prazeres, no caso de uma dor. BENTAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. ”  
Para o utilitarismo, o homem é um ser que só é livre quando se desenvolve intelectualmente e é capaz de fazer escolhas morais, diferentemente dos preceitos de Locke, que afirmava a liberdade do homem com base na natureza. Bentham não via coerência entre a teoria empirista de Locke e a doutrina do direito natural, pois, por não se tratar de um dado histórico, mostra-se insatisfatória. A existência de tal contrato, fundado por meio de uma reconstituição hipotética e não tendo validade histórica, não poderia dar fundamento ao direito natural.
Bentham considerava ainda que, mesmo que o direito natural, reconhecido pelo contrato, tivesse fundamento histórico, não há qualquer garantia de que os homens agiriam segundo o direito natural e segundo o contrato que o reconhece. Segundo Bentham, a única garantia de compromisso entre homens ou que um contrato social poderia ter é de apresentar as vantagens da vida em sociedade. Essa perspectiva leva ao entendimento de que a obediência às leis passa pela satisfação que pode ser proporcionada por ela. Assim, Bentham acreditava que, em vez de apelarem ao direito natural e à ação que promove a sua existência, os homens deveriam apelar para a utilidade de uma ação ou de uma norma.
Para o utilitarismo, o homem é um ser que necessita vivenciar seus desejos e, com isso, vivenciar o prazer, o fim último de todos os seres vivos. Ele é um ser passional, não apenas racional ou natural. Para ajudar o homem, os utilitaristas pensaram em criar uma ciência moral tão exata quanto a Matemática, até mesmo para dar conta de um de seus problemas fundamentais, qual seja: Como alcançar o prazer, sem produzir dor?
De fato, quando se considera o prazer como finalidade ética, temos aquilo que se chama hedonismo. No entanto, o hedonismo utilitarista está fundamentalmente preocupado com a vida em sociedade. Portanto, a noção de prazer e dor deve ser compartilhada, surgindo dessa partilha a verdadeira moral. Para o utilitarismo, prazer e utilidade são compatíveis, sendo que a utilidade depende da relação social.
John Stuart Mill - Defensor da causa da liberdade, teve como mestre Jeremy Bentham. Ou seja, sua defesa da liberdade passava pelos princípios utilitaristas. Contudo, a sua adesão ao utilitarismo não agregava todos os princípios pronunciados por seu mestre. Para Mill, mais importante do que calcular quanto de felicidade é necessária para afastar-se da dor é saber como a felicidade é construída.
“Sendo essas razões que tornam imperativo que os seres humanos devam ser livres para formar opiniões, e para expressá-las sem reservas e sendo essas as danosas consequências para a natureza moral do homem, a menos que esta liberdade seja concedida, ou restaurada a despeito da proibição, vamos agora examinar se as mesmas razões não requerem que os homens devam ser livres para agir de acordo com suas opiniões – para mantê-las em suas vidas, sem impedimentos físicos ou morais, causados pelos seus companheiros, desde que o risco seja por sua própria conta. Essa última cláusula é evidentemente indispensável. Ninguém acha que as ações devam ser tão livres quanto as opiniões. Ao contrário, mesmo as opiniões perdem suas imunidades quando as condições em que são expressas são tais que exprimi-las leva a uma instigação de algum ato maléfico. [...] Atos que de uma maneira qualquer e sem causa justificável causam danos a outras pessoas podem ser – e nos casos mais importantes é imperativo que o sejam controlados por sentimentos que lhes são desfavoráveis e, quando tal for necessário, pela interferência ativa da humanidade. A liberdade do indivíduo deve ser limitada dessa maneira; ele não deve tornar a si mesmo um problema para as outras pessoas. ” MILL, J. Stuart. Sobre a liberdade. Tradução Ari R. Tank. São Paulo: Hedra, 2010.
1.      Como viviam os homens das cavernas?
2.      Como viviam os homens, antes de se organizarem em sociedade, segundo John Locke, Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau?
3.      O que deveríamos fazer para compreender o poder político, segundo Locke?
4.      Segundo Locke, como viviam os homens no estado de natureza? Explique.
5.      Explique Direito natural e direito positivo.
6.      Fale sobre o homem e a liberdade segundo o utilitarismo.
7.      Qual a diferença entre os pensamentos de Locke, Bentham e John Stuart Mill.
8.      Pesquisar sobre a vida e a obra de John Locke, John Stuart Mill, Jeremy Bentham. E os termos ”Subjetividade”, Utilitarismo”, “Indivíduo”, “Contratualismo” e “Teoria Liberal”.



PROF. MANOELITO

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA RELIGIÃO – DEUS E A RAZÃO


O objetivo é apresentar o uso da racionalidade relacionada à existência de Deus. Seria possível conhecer Deus com base na razão? Como ela pode saber sobre sua existência? Há limites? Inicialmente veremos a diferenciação entre argumentos racionais e emocionais, com base nas etapas relativas à existência de Deus. Em seguida, veremos as provas da existência de Deus e como as pensou o filósofo Immanuel Kant. Enfim, vamos fazer uma reflexão sobre a alteridade, após a leitura de um texto de Montesquieu.
Deus como causa do mundo - Para Platão, não existe apenas um deus criador de tudo, mas um responsável pela organização do mundo. Ele seria o Demiurgo – um ser que produziria a imagem do mundo perfeito na matéria imperfeita. Antes de o mundo existir, havia ideias perfeitas e eternas que foram copiadas na matéria pelo Demiurgo. Embora as imagens não sejam perfeitas, a ação do Demiurgo permitiu tornar o mundo inteligível, ao ordenar o mundo sensível e assim favorecer nossa compreensão sobre ele.
Para Aristóteles, Deus seria o primeiro motor, isto é, todas as coisas que se movimentam são movimentadas por outras coisas. As pessoas, os ventos, os mares, as nuvens, as árvores, cada ser no mundo passa da potência ao ato, que é o movimento. Mas quem “daria o primeiro empurrão”, quem seria o primeiro motor? No livro Metafísica, a resposta apresentada por ele é Theós, que, em grego, significa Deus. Então, Deus existe porque alguém tinha de começar o movimento sem ser movimentado: um ato puro.
Para Plotino, filósofo grego neoplatônico que viveu entre 204 e 270 d.C., o mundo é parte do Uno. Imaginemos que a luz é a existência, e a falta de luz é não existir. Tudo o que está fora da luz não existe. A lâmpada é a fonte da luz. Tudo o que se pode ver precisa da luz; a luz está nas coisas para que elas apareçam. A fonte da luz é superior ao que ela ilumina. Afinal, sem luz, as coisas não aparecem. O Uno é, assim, a fonte de tudo o que existe. Mas as coisas que emanam dessa fonte não se separam dela. Não existe a ideia de que os seres criados possam ser separados do criador, como no cristianismo. Assim como os objetos precisam da luz para aparecer, os seres precisam do Uno para permanecer existindo; eles estão ligados, unidos, e tudo é parte do Uno. Por isso, quanto mais longe da fonte da luz estiver uma coisa, mais ela será sombria. Da mesma forma, quanto mais longe da fonte da existência, ou seja, o Uno, menor é a força de sua existência. Por isso, do Uno emana, primeiro, a inteligência; depois, a alma que governa o mundo e, enfim, o próprio mundo material. Cada ser no mundo é um pedaço do Uno, mas este é superior a todas as suas pequenas partes. O que está mais longe do Uno é o mundo material, e o que está mais perto são a inteligência e a alma.
Para a filosofia cristã, a ideia de que o mundo e suas partes emanam de Deus não pode ser fundamentada, porque Deus é puro, homogêneo e não pode ser dividido. Então, quando Ele criou o mundo, o fez separado Dele. Uma ideia bastante difundida nas Igrejas cristãs de diversas denominações – criada pela filosofia cristã – é a de que o mundo não pode ter sido gerado do nada: o mundo veio da criação de Deus; afinal, se algo viesse do nada, ele deixaria de ser nada para se tornar criador.
É por dois motivos que muito se pode falar sobre o conceito de Deus na História da Filosofia. Primeiro, porque esse conceito foi um dos primeiros problemas filosóficos clássicos e, segundo, porque muitos sistemas filosóficos dependem desse conceito. Sabemos seu desenvolvimento. De qualquer forma, as ideias anteriormente esboçadas podem ser consideradas matrizes do problema filosófico de Deus.
A existência de deus pode ser provada pela razão?
Existem algumas provas racionais da existência de Deus. Vejamos, sucintamente, as principais:
ü  Todos os povos têm religião; a existência de uma divindade é um consenso universal (consensus gentis).
ü  O mundo tem uma ordem e deve haver uma inteligência ordenadora de todas as coisas (São Tomás de Aquino). 
ü  Tudo tem uma causa. Tudo o que foi causado pode causar outras coisas. Deve haver algo que causa as coisas, mas não foi causado por ninguém. Deus é a causa não causada (Aristóteles).
ü  Todas as coisas estão em movimento e movimentam outras coisas. O movimento é a passagem do que é (ato) para aquilo que pode vir a ser (potência). Deve haver um ser que movimenta as outras coisas, mas não é movimentado por nada, o primeiro motor – ou o motor imóvel (Aristóteles).
ü  Tudo o que é alguma coisa participa de outra melhor. Por exemplo, algo quente participa do fogo. Cada ser tem um grau de perfeição, como o fogo e o objeto quente. O limite máximo da perfeição é Deus; acima Dele não há nada melhor (São Tomás de Aquino).
ü  Prova de São Tomás de Aquino – Cada ser precisa de algum outro para existir; esse ser é chamado de ser possível. Por exemplo, para existir, uma criança precisa de um pai e de uma mãe. O pai e a mãe precisam de outros seres; estes, de outros, e assim por diante. Todas as coisas do mundo precisam de outro ser para existir. Mas há um ser que não precisa de ninguém para existir; a ele nós chamamos de ser necessário. Se todos os seres do mundo precisam de outro para existir, deve haver, portanto, um ser que dê a existência ao mundo e ao mesmo tempo não precise de nada para existir; esse ser necessário é Deus.
ü  Prova de Santo Anselmo – Aquilo a respeito do que não conseguimos pensar nada de maior não pode estar apenas no intelecto. Afinal, o intelecto não ultrapassa essa ideia nem a contém. Então, se o intelecto não ultrapassa essa ideia, quer dizer que ela também está fora dele, na realidade. Como um copo que transborda com a água, há água dentro e fora do copo. Deus é o ser que nós não conseguimos pensar nada maior. Por isso, ele não pode ser apenas uma ideia; ele é uma realidade.
Para Kant, cada uma dessas provas é uma prova lógica, apenas racional. Mas nem sempre o que dá certo nas teorias lógicas acontece ou se repete no mundo real: a realidade não é devedora das nossas lógicas. Somos seres que pensamos apenas por meio de categorias limitadas, como tempo e espaço. Qualquer ser real, fora das nossas categorias, não pode ser conhecido, nem podemos provar a sua existência. Só podemos confirmar a existência de alguma coisa fazendo a experiência dela; do contrário, ela é uma suposição lógica, uma hipótese. Para Kant, a prova de Santo Anselmo (último item) incorre nesse erro. Do mesmo modo, a experiência objetiva nos diz que a prova da causalidade (terceiro item) não é uma prova da existência de Deus. Sabemos que alguns efeitos têm determinadas causas. De outros efeitos, não sabemos as causas. Por hipótese, é possível que haja uma causa inicial, mas, por não podermos repetir a experiência inicial, a prova perde seu valor. Novamente, o que é certo na lógica nem sempre é certo na realidade.
Kant disse o mesmo da prova da ordem do mundo (segundo item). Se pensarmos que o mundo tem uma ordem, podemos certamente supor que alguém ordenou todas as coisas. Por exemplo, se olhamos uma casa bem-feita, suporíamos que ali trabalhou alguém. Mas não sabemos quem foi esse alguém. Foi um arquiteto? Um engenheiro? Um pedreiro? Uma mulher? Um homem? Um jovem? Várias pessoas? Ou seja, sabemos que existe o mundo e que existe até mesmo certa ordem, mas quem é o responsável por isso não podemos provar. Para Kant, o entendimento humano é limitado em diversos aspectos, o que reduz as possibilidades do nosso conhecimento. Mais ainda, ao procurar suas respostas, Kant não se contentava com jogos de palavras, não basta parecer que se prova, é preciso provar de verdade. Em sua obra “A crítica da razão pura”, Kant fez a crítica da razão sem as experiências e as provas da existência de Deus. Em outro livro, A crítica da razão prática, o filósofo procurou entender o funcionamento da racionalidade objetiva, isto é, envolvida com as experiências e, assim, com a vontade. Então, seria justamente na vontade livre do homem que Kant encontraria a certeza da existência de Deus.
A razão prática se dá na ação do homem no mundo. Essa ação acontece pela condição única de ter uma consciência moral. Ela está necessariamente ligada aos objetivos do homem – o que se deseja fazer, a vontade. Se tivermos objetivos, o caminho para alcançá-los é a razão deles, o seu dever. Sobre isso, Kant lembra que o dever só é bom porque é garantido pela liberdade; do contrário, não teria valor. Se a razão prática compreende os objetivos ideais, então não há diferença entre o ideal e o real; afinal, o dever é real e bom. Ser e dever ser encontram sua síntese: Deus. Deus é o sumo bem. Deus existe porque é nosso dever procurar o bem.


Montesquieu - Uniformidade e diferença
“Existem certas ideias de uniformidade que algumas vezes ocorrem aos gênios, [...] mas que infalivelmente causam grande impressão às pequenas almas. Estas descobrem no interior de tais ideias uma espécie de perfeição; porque é quase impossível não vê-la: os mesmos pesos, as mesmas medidas no comércio, as mesmas leis do Estado, a mesma religião em toda parte. Mas será isso sempre verdadeiro, sem exceções? Será o mal da mudança constante menor que o do sofrimento? E a grandeza de um gênio não consiste, precisamente, em distinguir entre os casos em que a uniformidade é um requisito, e aqueles em que há necessidade de diferenças? “MONTESQUIEU. O espírito das leis.
A partir do século XVIII, a ideia do Estado laico surgiu no horizonte político e se impôs com toda força. Isso se deveu, em parte, à ascensão do pensamento iluminista. Na época, filósofos como Montesquieu propuseram a divisão do poder (em executivo, legislativo e judiciário), excluindo, assim, a função eclesiástica ou sacerdotal. Isso quer dizer que a noção de uniformidade da religião foi substituída pela de neutralidade do Estado. O ensino público universal, também introduzido pela Revolução, deve ignorar a religião e deixar a cada um que cultive as suas crenças, sem ter o direito de impô-las aos outros. O Estado é o fiador da segurança de cada um diante da intolerância.
1.      Prove, racionalmente, que existe um deus.
2.      Quando discutimos temas como: as diversas religiosidades, a existência de Deus, fé, entre outros, ora utilizamos argumentos objetivos, ora subjetivos. Assim, qual é a diferença entre argumentos objetivos e argumentos subjetivos?
3.      Por que para Kant não podemos provar racionalmente a existência de Deus?
4.      Como as diferentes religiões explicam a existência de Deus? Pesquisar.
5.      Comente de acordo com o que você entendeu das principais provas racionais da existência de Deus e dê a sua opinião.
6.      Explique Deus segundo, Platão, Aristóteles, Plotino e para a Filosofia Cristã.
7.      Pesquisar vida e obra dos filósofos: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Santo Anselmo e Immanuel Kant e as expressões “Fé e Razão”, “Tolerância”, “Religião” e “Alteridade”.








Prof. Manoelito

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA CIÊNCIA


O objetivo é desenvolver uma imagem crítica da Ciência, com base no pensamento de Karl Popper e Thomas Kuhn, desdobrando a questão para tratar de temas como indução e dedução. Nas primeiras aulas, vamos discutir o problema da indução como base de verdade; logo após, apresentaremos o chamado falsificacionismo, como alternativa para tratar do problema da indução, e discutiremos o paradigma de Kuhn.
Bloco 1: Todos os homens vivos respiram. / Meu irmão é um homem vivo. / Portanto, meu irmão respira.
Bloco 2: Meu irmão respira. / Meu irmão é um homem vivo. / Portanto, todos os homens vivos respiram.
No segundo caso, o argumento não está completo: as duas afirmações (meu irmão respira e meu irmão é ser vivo) não permitem afirmar de forma generalizada que todos os homens respiram. O argumento é inválido, porque a conclusão toma por verdade apenas uma possibilidade: por mais verdadeiras que sejam as inferências, a conclusão pode não ser verdadeira.
Para muitos filósofos, na Ciência, a dedução toma o seguinte sentido: temos um conhecimento teórico e por ele agimos, ou por ele conhecemos outras dimensões do mundo. Por exemplo, a lei da gravitação Universal de Isaac Newton diz que todos os corpos se atraem segundo uma força derivada de suas massas e sua distância. Desse modo, quando um objeto qualquer cai, na verdade, ele foi atraído pelo planeta. A massa do objeto é atraída pela massa do planeta. Portanto, ao soltar uma bolsa, ela será atraída pela força gravitacional da Terra.
Por dedução, podemos dizer que os objetos, como a bolsa, são atraídos pelo planeta; por isso, de alguma forma, acreditamos que tudo cai, porque sabemos que há uma Lei da gravidade e, com base nela, é possível prever um acontecimento. Além disso, ela é logicamente válida.
A seguir, vamos refletir sobre a possibilidade de chegar a teorias e leis que valem tanto para a realidade como para a lógica; desse modo, será possível compreender melhor o que são indução e dedução.
Indução, ou dados obtidos a partir de experiências
   O livro de Matemática tem exercícios com frações.

Criação da lei ou teoria
    Exercícios com frações são difíceis.

Exercício de dedução
    Logo, os livros de Matemática são difíceis, porque têm
   exercícios com frações.


POR UMA VISÃO CRÍTICA DA CIÊNCIA
O conceito não crítico de Ciência, isto é, aquele que se utiliza da indução.
ü  Com base na observação de grande número de experiências, por meio dos cinco sentidos, cria-se uma lei ou uma teoria;
ü  Ao se repetirem as condições enunciadas nessa lei, pode-se prever um acontecimento.
ü  Isso garantiria a objetividade do conhecimento científico, isto é, ele não dependeria da opinião das pessoas, mas poderia ser comprovado por todos os seres humanos.
ü  Com a indução, parte-se do particular para o universal; esse conceito utiliza a generalização para criar leis e teorias científicas.
ü  Com as leis e as teorias científicas, é possível, por meio da dedução, prever e explicar acontecimentos.
A Ciência é uma atividade racional e, por isso, vale-se das regras da lógica para fundamentar seus conhecimentos. No entanto, a indução não parte das regras lógicas para se legitimar. Ela parte da experiência. A experiência pode parecer racional, mas não é, pois está envolvida com os sentidos, e não com o raciocínio.
Leiam o texto a seguir e analisem como David Hume propôs o problema
“Parte II 28. Mas nós ainda não atingimos algo minimamente satisfatório com relação à questão primeiramente proposta. Cada solução ainda levanta uma nova questão tão difícil quanto a que a precede, e nos leva a mais questionamentos. Quando se pergunta, qual a natureza de todos nossos argumentos com relação a fatos reais? A resposta adequada parece ser a que eles são baseados na relação de causa e efeito. Quando novamente se pergunta, qual a fundamentação de todos os nossos argumentos e conclusões referentes a tal relação? Pode-se responder em uma só palavra: experiência. Mas se ainda quisermos dar continuidade a nosso humor investigativo, e perguntarmos. Qual a fundamentação de todas as conclusões baseadas na experiência? Isso implicaria uma nova questão, que pode ser de mais difícil solução e explicação. Filósofos, que se dão ares de sabedoria e suficiência superiores, têm uma árdua tarefa quando encontram pessoas com disposição investigativa, que os empurram para fora de todos os cantos em que se recolhem, e que certamente trazem a eles algum dilema perigoso. O melhor expediente para prevenir essa confusão é sermos modestos em nossas pretensões; e até mesmo descobrir a dificuldade nós mesmos antes de esta nos ser direcionada. Desse modo, podemos fazer de nossa ignorância uma espécie de mérito. ” HUME, David. An enquiry concerning human understanding. Essays and treatises on several subjects. p. 42. Disponível em: <http://goo.gl/b6NXkl>. Acesso em: 29 out. 2013. tradução Eloisa Pires.
Vamos rever o que é a indução, agora com um exemplo dado por Bertrand Russell.
“Certo peru foi alimentado, durante um ano, às 9 horas (dado). Ele criou, então, uma lei: sou alimentado todos os dias às 9 horas (teoria).  Amanhã, às 9 horas, serei alimentado (previsão).
No entanto, houve um problema com a previsão do peru, pois, no dia seguinte à sua previsão, ele foi degolado porque era véspera de Natal e ele seria servido na ceia. ”
Por que a previsão do peru falhou? Porque leis e teorias são questionáveis, nada na natureza tem o dever de seguir nossas leis científicas. Por isso, se um dia o Sol se puser e, no outro, não amanhecer, o que impediria a ocorrência? Ora, as leis da natureza são as interpretações que fazemos dela. Cada princípio científico pode ser contrariado pela natureza porque não é fundamentado pela razão, mas pela experiência. Nós prevemos alguns eventos como se fosse um hábito psicológico. Por exemplo, o que garante que, ao soltar um lápis, ele vai cair? A Lógica não pode garantir isso; afinal, ela trata de palavras e conhecimentos, e nunca da realidade. A experiência é sempre única, e a queda de um lápis não tem relação com a queda de outro. Em resumo, nada garante que o lápis vá cair. Por isso, quando consideramos a Ciência como uma garantia da verdade, temos uma visão acrítica dela. Há, ainda, dois outros problemas que precisamos discutir a respeito da indução, como fundamento da Ciência. São eles:
ü  A observação como fonte objetiva; e  A relação teoria-experiência.
Afirma-se, constantemente, que da observação das experiências tiramos os conhecimentos. Mas será que cada um de nós observa da mesma maneira? Será que nossa visão, nossa audição, nosso paladar, nosso tato e nosso olfato são iguais aos dos outros seres humanos? As pessoas podem observar uma mesma situação de modos diferentes.
Quais são os limites da observação? As percepções que vêm dos sentidos não são as mesmas para todos, já que as pessoas podem observar uma mesma situação de formas diferentes.
Enfim, a observação tem problemas em relação à objetividade da Ciência, e também com a crença de que dela derivam todas as teorias. Seria muito difícil acreditar que, quando um cientista realiza uma experiência, ele o faça partindo do nada. Ele tem muitas teorias anteriores à experiência, e, algumas vezes, é com base nelas que ele irá produzir a própria experiência a ser observada. Isso aparece principalmente quando, durante a observação, o cientista usa o vocabulário de uma teoria para expressar sua percepção. Por exemplo, para explicar a experiência de um livro que foi solto no solo, um físico poderia dizer, em sua observação, que a força gravitacional da massa do planeta Terra é que atraiu para ele, segundo sua distância, a massa do livro. Onde está a palavra “força” no ato de soltar um livro? E “atração”? Todas essas palavras estão na mente do cientista antes da experiência.
Na vida cotidiana, podemos encontrar vários exemplos de percepções com vocabulário derivado de outras teorias. Por exemplo, se dissermos: “o vento empurrou o lixo para dentro da sala”, já apresentamos teorias. Inicialmente, que o lixo pode ser empurrado, e que o ato de ele entrar na sala foi em função de algo externo, uma vez que não seria capaz de entrar na sala sozinho: temos, aqui, uma teoria da inércia do lixo. Segundo, mesmo sem podermos ver, sabemos que o vento é capaz de movimentar outras coisas: temos, aqui, uma teoria da capacidade de o vento empurrar. Se, no cotidiano, temos teorias, seria absurdo imaginar que os cientistas gastariam montanhas de dinheiro para fazer pesquisas sem uma teoria prévia do que eles pretendem experimentar.
Como exemplo, observem pequenos fenômenos na sala de aula. Os fenômenos, como “o Sol atravessa o vidro e aquece a carteira”.  Percebam as pequenas teorias que acompanham essa afirmação. Por exemplo, o Sol é quente e emite raios de calor; o vidro é transparente e permite a passagem de calor e de luz; a carteira recebe calor e fica aquecida. Assim, por meio da percepção, do vocabulário de outras teorias e de inferências, é possível elaborar pequenas teorias. Nesse contexto, podemos afirmar que a Ciência é uma atividade humana que contempla, entre outros procedimentos, observações, interpretações e análises de fenômenos (no exemplo mencionado, os raios solares incidem verticalmente sobre um material sólido e transparente, atravessando-o e incidindo sobre objetos).
O falsificacionismo, Karl Popper
Depois de termos visto alguns problemas sobre a indução, vamos estudar agora alguns filósofos que reconheceram a importância da atividade científica. Embora admita-se que ela não é capaz de dar todas as respostas e se entenda que é baseada na indução, acreditamos que, ainda assim, a Ciência oferece as melhores respostas disponíveis.
Para os falsificacionistas – entre os quais Karl Popper é um dos mais importantes –, o valor de um conhecimento científico não vem da observação de experiências, mas da possibilidade de a teoria ser contrariada, ou melhor, falseada. Em um primeiro momento, acreditava-se que a Ciência comportaria todas as verdades, com base na criação de teorias e leis que surgiriam pela observação de experiências – essa é a crença de indutivistas. Com a ideia de que a teoria precede a experiência, os falsificacionistas admitem que toda explicação científica é hipotética; no entanto, é o melhor que temos.
Quanto mais uma teoria pode ser falseada, melhor seria ela. Por exemplo, ignorando a pressão atmosférica e outros fatores, se dissermos que “a água ferve a 100 graus Celsius”, qual é a contradição possível, ou melhor, o que tornaria falsa essa afirmação? A resposta seria: ao chegar a 100 graus Celsius, a água não ferveria, ou ferveria antes. No momento em que uma teoria é falseada, o cientista tentará melhorá-la ou a abandonará. Mas, enquanto ela não é falseada, permanece seu valor explicativo. O fundamental é que tenhamos em mente o seu limite. As teorias têm de dizer algo bem objetivo sobre o mundo, para sermos capazes de conceber sua falsificabilidade.
Critérios para uma boa teoria
ü  Tem de ser clara e precisa, não pode ser obscura nem deixar margem para várias interpretações. Quanto mais específica, melhor;
ü  Deve permitir a falsificabilidade; quanto mais, melhor;
ü  Deve ser ousada, para conseguir progredir em busca de um conhecimento mais aprofundado sobre a realidade.
Teorias que não podem ser falseadas não são boas teorias. Por exemplo, se alguém disser que “o ladrão rouba”, não estará dizendo muita coisa sobre o mundo. Apesar de parecer clara, essa afirmação não pode ser falseada; afinal, está contida na palavra “ladrão” a ideia de que ela qualifica os seres que roubam. Ninguém precisa dizer “o ladrão rouba” para sabermos que ele rouba. É impossível contradizer essa afirmação, pois é completamente irracional pensarmos em um ladrão que não rouba.
Outro exemplo: se dissermos “é possível ter sorte no esporte”, também não diremos muita coisa. Não estamos sendo precisos, uma vez que muitas outras coisas são possíveis no esporte. A própria ideia de que algo é possível permite quase tudo, mas como medir a sorte ou saber que não foi o acaso? Essa frase serve tanto para perder quanto para ganhar, não é capaz de ser falseada. Pode ser a sorte de um time ou de outro; pode ser até mesmo a sorte dos dois, mas nunca deixará de ser sorte de alguém.
O progresso da ciência
Para os falsificacionistas, a Ciência progride pela tentativa de superação das teorias. Com base nas considerações de Alan Chalmers, no livro O que é Ciência afinal? Podemos pensar o progresso da Física segundo os falsificacionistas.
O primeiro grande físico seria o filósofo Aristóteles. Sua teoria explicava por que os objetos caíam (para encontrar seu lugar natural) ou, também, como funcionava o sifão (a impossibilidade do vácuo). A física de Aristóteles foi falseada várias vezes. A física de Newton era capaz de explicar melhor do que a física de Aristóteles diversos fenômenos; por exemplo, a lei da gravidade era melhor que a teoria da Posição Natural, esta refutada há bastante tempo. No entanto, a física de Newton não explicava alguns fenômenos, como a órbita do planeta Mercúrio. A física de Albert Einstein, por sua vez, era capaz de explicar não só os pontos em que a física de Newton era bem-sucedida, como o que foi refutado dessa teoria. Agora, os cientistas procuram ir além. A teoria de Einstein é melhor que a de Aristóteles e que a de Newton; no entanto, apesar de ser a melhor disponível, poderá ser superada um dia, pois o melhor que temos não é o definitivo.
O não científico na ciência
Muitos filósofos se interessaram em pensar de forma crítica a Ciência, seus fundamentos, seus limites e seu progresso. Agora, vamos discutir a reflexão de Thomas Kuhn a respeito da Ciência, vista por ele como uma construção histórica. Em primeiro lugar, é importante salientar que a Ciência é uma atividade racional e humana. Como muitas outras, é influenciada por problemas humanos de natureza variada, como emocionais, políticos, linguísticos, sociais e religiosos.
Kuhn percebeu que essas influências são inerentes à racionalidade humana e se propôs a pensar a Ciência com base nelas e de acordo com a seguinte linha de desenvolvimento:  1. Pré-Ciência, 2. Ciência normal, 3. Crise, 4. Revolução científica e 5. Nova Ciência normal.  O conceito mais importante para Kuhn é o de paradigma, que é o modelo da Ciência normal. Durante um tempo, todos os cientistas procuram orientar suas pesquisas com base em um modelo, de maneira a preservar a verdade científica. O que não se encaixar nesse modelo será excluído; será considerado anomalia, mas isso também pode indicar que o cientista não aplicou corretamente o modelo e sua metodologia. Para Kuhn, o determinante das normas da Ciência é o paradigma aceito pelos cientistas. Mas, por motivos nem sempre racionais, os cientistas mudam de paradigma, após uma crise da Ciência normal, o que, em geral, é fundamentado na anomalia, isto é, quando a Ciência normal não consegue responder a alguns problemas, como a órbita de Mercúrio para a física newtoniana.
Essa crise estende-se até uma revolução científica, quando a maneira de fazer Ciência muda completamente. Quando ocorre essa mudança, segundo Kuhn, chega-se a uma nova Ciência normal, praticada, a partir desse momento, de acordo com um novo paradigma.
É preciso considerar que a racionalidade científica encontra problemas dentro e fora de seu espaço de ação. Dentro desse espaço são as anomalias e, fora dele, são as necessidades humanas da pesquisa científica. Instituições, empresas e governos procuram fazer que a Ciência seja orientada por seus interesses, não apenas por mera curiosidade.
Com base no texto, responda as seguintes questões:
1.       Qual é a natureza de todos os nossos raciocínios sobre os fatos, segundo Hume?
2.       De acordo com Hume, qual é o fundamento de todos os nossos raciocínios e conclusões sobre a relação de causa e efeito?
3.       Por que Hume vê um problema na fundamentação das conclusões por meio da observação da experiência?
4.       Para muitos filósofos, na Ciência, que sentido a dedução toma?
5.       Por que a previsão do peru falhou?
6.       Quais são os problemas que precisamos discutir a respeito da indução, como fundamento da Ciência.
7.       Por que as percepções que vêm dos sentidos não são as mesmas para todos?
8.       Os fenômenos, como “o Sol atravessa o vidro e aquece a carteira”. Nesse contexto, o que podemos afirmar?
9.       Para os falsificacionistas, entre os quais Karl Popper é um dos mais importantes, de onde vem o valor de um conhecimento científico?
10.   Para os falsificacionistas, quais são os critérios para uma boa teoria cientifica?
11.   Para os falsificacionistas, como a Ciência progride?
12.   Explique a linha de desenvolvimento da ciência proposta por Thomas Kuhn.
13.   O que é um paradigma, segundo Thomas Kuhn?
14.   Pesquisar vida e obras de Karl Popper, Thomas Kuhn, David Hume e as expressões: “Ciência”, “termo científico”, “Hipótese”, “tese”, “Indução” e “Dedução”.



PROF. MANOELITO

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Outra vez estamos precisando trazer a Filosofia do céu para a terra, temos que ajudar na conscientização dos jovens que “A presença do outro faz toda diferença em nossa existência”. Como diria Sartre: "O nosso inferno é o outro" e eu acrescentaria que o outro também é o nosso Céu.



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