quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
CONTEÚDOS DAS SITUAÇÕES 1 E 2 - 3ª SÉRIE - 1º BIMESTRE - AVALIAÇÃO 01
O PRECONCEITO EM RELAÇÃO À FILOSOFIA
Leitura e Análise de Texto
Ideias que as pessoas têm da Filosofia
Se fizermos uma rápida pesquisa com as pessoas à nossa volta, indagando o que elas pensam da Filosofia, muito provavelmente ouviremos opiniões diversas. Umas dirão, por exemplo, que a Filosofia é algo muito difícil e que, por isso mesmo, só pode ser praticada por pessoas de inteligência privilegiada, sendo inacessível aos “simples mortais”; outras responderão que a Filosofia é coisa de gente doida, que vive no mundo da lua e que só se preocupa com assuntos abstratos, e que ela, a Filosofia, nada tem a ver com a vida prática; outras, ainda, concordando com essas últimas, emendarão que a Filosofia, por não ter uma aplicação prática imediata, não serve para nada. Pode ser que alguém, remando contra toda essa maré de opiniões pejorativas a respeito da Filosofia, se arrisque a dizer que a considera uma matéria linda, já que permite o contato com o pensamento dos filósofos, expresso em frases de rara profundidade e beleza, ainda que, por vezes, incompreensíveis; por fim, certamente haverá também aquelas que confessarão, com algum sarcasmo ou menosprezo, não ter a menor ideia do que seja a Filosofia.
Todas essas opiniões, na realidade, são, pelo menos em certa medida, expressão de um preconceito em relação à Filosofia. Por que preconceito? Porque, em geral, são opiniões emitidas apressadamente, precipitadamente, sem a preocupação de examinar com o devido cuidado o assunto sobre o qual se está opinando a fim de conhecê-lo melhor. E é justamente isso que caracteriza o preconceito. Sempre que fazemos isso corremos mais seriamente o risco de nos enganar em nosso julgamento e até de cometer injustiças com as pessoas.
1. Você se considera preconceituoso em relação a alguma coisa? Argumente.
2. E em relação à Filosofia? Justifique.
3. Cite dois adjetivos que você atribuiria à Filosofia.
4. O que é Filosofia para você?
5. Na sua opinião, para que serve a Filosofia?
6. Na sua opinião, o que faz um filósofo e o que uma pessoa precisa fazer para filosofar?
Tales de Mileto: o distraído
O preconceito e a hostilidade em relação à Filosofia não são algo novo, recente, mas, ao contrário, remontam às origens da Filosofia na Grécia Antiga. Talvez o registro mais antigo desse preconceito seja aquele de que foi vítima Tales de Mileto, que viveu no século VII a.C. e é considerado o primeiro filósofo da história. A respeito dele contava-se a seguinte anedota, bastante difundida na Grécia Antiga e recuperada por Platão em sua obra Teeteto1: Tales era tão interessado no estudo dos astros que costumava caminhar olhando para o céu. Certo dia, absorto em seus pensamentos e raciocínios, acabou tropeçando e caindo em um poço, sendo motivo de riso e caçoada para uma escrava que ali se encontrava. Espalhou-se, então, o boato de que Tales se preocupava mais com as coisas do céu, esquecendo-se das que estavam debaixo de seus pés. “Essa pilhéria”, adverte Platão, “se aplica a todos os que vivem para a Filosofia.”2
Essa imagem de um homem distraído e trapalhão, porém, não parece condizer com a verdade sobre Tales, que, ao que tudo indica, era uma pessoa bem esperta, viva e inteligente. É o que se conclui, por exemplo, de outra anedota contada sobre ele, registrada por Aristóteles em sua obra A política e atribuída a Tales por causa de sua sabedoria: “Como o censuravam pela pobreza e zombavam de sua inútil filosofia, o conhecimento dos astros permitiu-lhe prever que haveria abundância de olivas. Tendo juntado todo o dinheiro que podia, ele alugou, antes do fim do inverno, todas as prensas de óleo de Mileto e de Quios. Conseguiu-as a bom preço, porque ninguém oferecera melhor e ele dera algum adiantamento. Feita a colheita, muitas pessoas apareceram ao mesmo tempo para conseguir as prensas e ele as alugou pelo preço que quis. Tendo ganhado muito dinheiro, mostrou a seus amigos que para os filósofos era muito fácil enriquecer, mas que eles não se importavam com isso. Foi assim que mostrou sua sabedoria.”3
Na verdade, Tales deve ter gozado de grande prestígio em sua época. Tanto que passou para a posteridade como um dos sete sábios da Grécia4: na política, empenhou-se em organizar as cidades gregas da Jônia para enfrentar a ameaça dos persas; como engenheiro, quis desviar o curso de alguns rios para fins de navegação e irrigação; como pesquisador, investigou as causas das inundações do rio Nilo, rompendo com as explicações míticas que se davam para elas; como astrônomo, previu um eclipse solar e descobriu a constelação denominada Ursa Menor; como matemático e geômetra, teria descoberto um método para medir a altura de uma pirâmide do Egito, do qual teria derivado o famoso “teorema de Tales”.
Além disso, não podemos esquecer que Tales foi, segundo Aristóteles, o primeiro a dar uma resposta racional, isto é, sem recorrer aos mitos, para a pergunta que mais incomodava os primeiros filósofos (os chamados pré-socráticos ou filósofos físicos): Qual era o elemento primordial que dava origem a todas as coisas? Para Tales esse elemento era a água, por ela estar presente nos alimentos necessários à vida, pelo fato de as coisas vivas serem úmidas, enquanto as mortas ressecam e porque a Terra repousa sobre as águas. Daí sua conclusão de que ela deve ter sido o elemento primordial.
Vemos, portanto, que Tales, ao contrário do que sugere a primeira anedota, não tinha nada de lunático, distraído e desligado dos problemas concretos. Pôs toda a sua inteligência, curiosidade e criatividade a serviço da busca de soluções para eles, sobretudo aqueles mais importantes e urgentes em sua época. Eis por que a tal anedota revela, de fato, um preconceito, isto é, um conceito precipitado e desprovido de fundamentação.
1. Na sua opinião, Tales foi vítima de preconceito? Por quê?
2. De acordo com o excerto de Aristóteles, e baseado nos outros dados do texto analisado, você consideraria a filosofia de Tales como algo sem utilidade? Justifique.
3. E quanto a você? Já sofreu algum preconceito? Se desejar, conte ao grupo.
4. Você acredita que uma pessoa que passe a se interessar pela Filosofia será alvo de preconceito, hostilidade ou rejeição? Por quê? Teme que isso aconteça com você?
5. Faça uma pesquisa sobre Tales e os filósofos pré-socráticos procurando responder às seguintes
perguntas:
a) Por que são chamados de pré-socráticos?
b) Por que Tales é considerado o primeiro filósofo da história?
c) Quais são as respostas de outros pré-socráticos para o problema da origem do universo?
Sócrates: aquele que vive nas nuvens
Outra célebre vítima do preconceito e da intolerância contra a Filosofia foi Sócrates. E neste caso as consequências foram muito mais sérias, visto que o levaram à morte. Na realidade, não há uma imagem única de Sócrates. Isso porque todas as informações que temos dele nos chegaram por testemunhos indiretos, já que ele mesmo nada escreveu.
Assim, enquanto seus amigos, admiradores e discípulos, como Xenofonte e Platão, por exemplo, o viam como sábio, patriota, respeitador das leis e da religião, piedoso, justo, valoroso como guerreiro nas batalhas etc., seus críticos o retratavam como uma pessoa esquisita, deslocada, excêntrica, charlatã, corruptor de jovens e ímpio.
Leitura e Análise de Texto
De todos esses testemunhos pouco elogiosos sobre Sócrates, sem dúvida o mais significativo que chegou até nós foi a imagem dele traçada por Aristófanes na comédia As nuvens.
Neste texto, aparece um Sócrates “se movendo livremente, proclamando que caminhava no ar e dizendo uma plêiade de outras tolices” das quais não entende nada. É um Sócrates mestre dos sofistas, isto é, charlatão, enganador e que ensinava às pessoas a arte desse engano. Aliás, essa imagem dos sofistas também era, em boa medida, preconceituosa. Na peça de Aristófanes, ele surge em cena empoleirado em uma cesta suspensa no ar, significando que ele vivia nas alturas, preocupado com questões de cosmologia e de astronomia (movimento dos astros, origem do universo etc.), ou com assuntos sem a menor relevância, como a medida do pulo de uma pulga, ou se o zumbido de um mosquito é produzido por sua tromba ou seu traseiro, ficando totalmente alheio aos problemas realmente importantes da vida dos cidadãos de Atenas. A certa altura, um dos discípulos conta que, certa vez, “uma lagartixa atrapalhou uma indagação transcendental” de Sócrates.
Isso aconteceu, segundo o relato, quando ele “observava a lua para estudar o curso e as evoluções dela, no momento em que ele olhava de boca aberta para o céu, do alto do teto uma lagartixa noturna, dessas pintadas, defecou na boca dele”. Essa imagem depreciativa e até cômica de Sócrates provavelmente revela a ideia que a maioria das pessoas tinha a respeito dele e dos filósofos em geral. No entanto, é uma imagem bastante distorcida. Na realidade, Sócrates e os sofistas inauguram um novo período na história da Filosofia em que a reflexão filosófica se desloca da cosmologia e da física (princípio que dá origem a todas as coisas) para as questões relativas à vida concreta na cidade (pólis), isto é, à política, à ética, ao conhecimento. Os assuntos que ele gostava de abordar eram a justiça, a beleza, a coragem, o amor, a educação, entre outros. Vem daí, aliás, a denominação de pré-socráticos atribuída aos filósofos anteriores a ele. Não tanto por razões de cronologia, mas principalmente pela diferença quanto aos temas da reflexão filosófica.
Além disso, no que se refere aos sofistas, Sócrates tinha, certamente, muito mais diferenças e mesmo divergências com eles do que semelhanças. Enquanto os sofistas se apresentavam como sábios, isto é, pessoas entendidas em diversos assuntos, especialmente na técnica da retórica, Sócrates dizia: “Sei que nada sei”; enquanto os sofistas cobravam pelos ensinamentos que ministravam, Sócrates condenava essa prática e filosofava com as pessoas gratuitamente na praça (ágora) de Atenas; enquanto os sofistas eram céticos em relação à possibilidade de se conhecer a verdade universal, Sócrates a perseguia incansavelmente; enquanto os sofistas contentavam-se com a opinião (doxa), Sócrates exigia o saber verdadeiro (episteme).
A respeito dos sofistas, diz Sócrates ironicamente por ocasião de seu julgamento: “Cada um desses homens [...] é capaz de dirigir-se a qualquer cidade e persuadir os jovens, os quais podem se associar, segundo queiram, com qualquer de seus concidadãos sem pagar, a deixar a companhia dessa pessoa para se juntarem a ele, remunerá-lo e, além disso, mostrar-lhe gratidão”.
Vemos, assim, que a imagem de Sócrates traçada por Aristófanes, procurando retratá-lo como alguém que anda nas nuvens, preocupado com assuntos alheios ao cotidiano das pessoas e identificado com os sofistas, não corresponde à verdade sobre ele. Ao contrário, baseia-se em um preconceito, a exemplo do que ocorrera com a anedota sobre Tales.
É interessante observar que em seu julgamento Sócrates faz menção à comédia de Aristófanes (As nuvens) como um dos fatores que provocaram as acusações contra ele.
PESQUISA
1. O que foi a comédia e qual a sua importância para a democracia ateniense? Cite alguns dos principais comediógrafos e suas obras.
2. Pode-se afirmar que a imagem de Sócrates construída por Aristófanes é preconceituosa? Por quê? Em que sentido?
3. Como era a democracia ateniense e em que ela se diferencia da democracia brasileira atual?
4. Quais são as principais diferenças entre Sócrates, os filósofos pré-socráticos e os sofistas?
5. A comédia e o humor podem ser formas de propagação de preconceitos? Justifique sua resposta
e, se possível, dê exemplos.
6. Essas formas de manifestação artística e cultural são importantes para a democracia? Justifique.
3. Você vê alguma semelhança entre o papel da comédia no tempo de Sócrates e o dos programas humorísticos atuais? Dê exemplos e comente.
Sócrates
Discuta brevemente com um colega sobre a seguinte questão: Como é possível alguém ser a pessoa mais sábia que existe e, ao mesmo tempo, ser também alguém que nada sabe? Utilize o texto a seguir para embasar esta discussão.
A morte de Sócrates
Leitura e Análise de Texto
De acordo com Platão, as acusações contra Sócrates foram: “Sócrates é réu por empenhar-se com excesso de zelo, de maneira supérflua e indiscreta, na investigação de coisas sob a terra e nos céus, fortalecendo o argumento mais fraco e ensinando essas mesmas coisas a outros.”
“Sócrates é réu porque corrompe a juventude e descrê dos deuses do Estado, crendo em outras divindades novas.”
Levado a julgamento, foi condenado à morte. Como e por que isso ocorreu?
Tudo começou quando Sócrates tomou conhecimento de que o oráculo do templo de Delfos, dedicado ao deus Apolo, havia proclamado que ele era o homem mais sábio de Atenas. Não se considerando como tal, mas, ao mesmo tempo, não podendo duvidar da palavra do deus, decidiu investigar o significado de tal revelação.
Procurou, então, aqueles cidadãos mais ilustres de Atenas e que eram tidos como os mais sábios da cidade. Eles pertenciam a três categorias sociais: os políticos, os poetas (autores de tragédias, como Aristófanes, e de ditirambos – cantos religiosos em homenagem ao deus Dionísio) e os artesãos.
Interrogando esses cidadãos (por meio de seu método dialético), constatou que, na realidade, nada sabiam dos assuntos em que eram tidos como sábios. Ao término da conversa com cada uma dessas pessoas Sócrates concluía: “Sou mais sábio do que esse homem; nenhum de nós dois realmente conhece algo de admirável e bom, entretanto ele julga que conhece algo quando não conhece, enquanto eu, como nada conheço, não julgo tampouco que conheço. Portanto, é provável, de algum modo, que nessa modesta medida seja eu mais sábio do que esse indivíduo – no fato de não julgar que conheço o que não conheço”.
Daí a famosa expressão atribuída a Sócrates: “Sei que nada sei”. Acontece que Sócrates praticava esses diálogos em praça pública, à vista de todos. Dentre os presentes havia sempre muitos jovens, filhos de famílias ricas, que dispunham de tempo livre (já que não precisavam trabalhar) e, por isso, podiam acompanhá-lo nessas ocasiões.
Eles se divertiam vendo Sócrates “desbancar” os que se julgavam sábios e, mais tarde, punham-se a imitá-lo, interrogando outras pessoas e descobrindo muitas que supunham saber o que de fato não sabiam. Essas pessoas, que em geral eram gente importante e de prestígio na cidade, sentindo-se constrangidas, tornavam-se furiosas não contra esses jovens, mas contra aquele que consideravam responsável por tê-los ensinado tal comportamento; e passavam a propagar que: “Sócrates é o mais pestilento dos indivíduos e está corrompendo a juventude”. Na verdade, quando indagadas, tais pessoas não conseguiam provar tal acusação.
Mas para esconder seu constrangimento, lançavam mão daquelas acusações que sempre são usadas contra todo “filósofo, ou seja, que [ensina] ‘as coisas no ar e as coisas sob a terra’ e ‘não crê nos deuses’, e ‘torna mais forte o argumento mais fraco’.” Esta é a origem das “inimizades, a um tempo implacáveis e aflitivas”, do ódio, das “calúnias” e das acusações contra Sócrates e que acabaram por levá-lo à morte.
No fundo, Sócrates foi condenado porque, na democracia ateniense, os assuntos mais importantes da vida da cidade eram decididos em assembleias (ekklesía) nas quais cada cidadão podia expressar livremente sua opinião a favor ou contra uma determinada posição.
Era, pois, um regime político sustentado pela crença no valor das opiniões. Ora, o que Sócrates fazia com sua dialética era justamente pôr em cheque as opiniões, mostrando que, muitas vezes, elas refletiam um conhecimento falso sobre o assunto em questão. Assim, para as pessoas importantes da cidade que costumavam discursar nessas assembleias, a “má” influência de Sócrates, sobretudo sobre os jovens, representava uma ameaça ao sistema democrático do qual se beneficiavam. Eis aí a natureza política da condenação de Sócrates.
1. Leia o texto a seguir, extraído do artigo intitulado “Errar é humanas”, de Gustavo Ioschpe, articulista da revista Veja. Em seguida, considerando também o ocorrido com Sócrates, escreva uma breve reflexão (10 a 15 linhas) sobre o tema: “A natureza política do preconceito e da intolerância com a Filosofia”.
Leitura e Análise de Texto
“Errar é humanas”
“[...] É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo que impera em nossas escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se os nossos alunos saíssem do ensino médio ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas próprias conclusões filosóficas ao lerem seus próprios livros.”
1. Pesquise na internet, ou em outras fontes, piadas sobre a Filosofia e os filósofos. Transcreva pelo menos uma e leve para a aula seguinte para ser objeto de discussão em sala.
Prof. Manoelito
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 2
FILOSOFIA: DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA
As frases a seguir são expressões corriqueiras, extraídas da linguagem cotidiana.
“O essencial é invisível aos olhos.” “As aparências enganam.” “A justiça tarda, mas não falha.” “Todos somos iguais perante a lei.” “É preferível a democracia à ditadura.” “A liberdade exige responsabilidade.” “A felicidade não se compra.” “O amor é lindo.”
1. Discuta com seus colegas e responda:
a) O que os termos destacados significam para você?
b) Você sabia que esses termos são, na verdade, conceitos filosóficos que se tornaram senso comum?
c) Cite mais algumas expressões do senso comum que contenham conceitos filosóficos.
Texto 1 – Todos os homens são “filósofos”
Leitura e Análise de Texto
Antonio Gramsci, um filósofo italiano do século passado, já alertava para a necessidade de se combater o preconceito muito difundido de que a Filosofia é uma atividade intelectual muito difícil e, por isso, restrita a uma minoria de inteligência supostamente privilegiada. Isso porque, para ele, num certo sentido, “todos os homens são ‘filósofos’”, pois, de algum modo, todas as pessoas, sem distinção, independentemente de seu grau de escolaridade, lidam, convivem, trabalham com a Filosofia e a utilizam no seu dia a dia, mesmo que não se apercebam disso. Afinal, a Filosofia está presente “na linguagem, no senso comum, no bom senso, na religião”, enfim, “em todo sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ser e agir” que caracteriza o que convencionalmente se denomina de “folclore” e do qual todos participam.
A Filosofia está presente na linguagem porque esta não é pura e simplesmente um amontoado de “palavras gramaticalmente vazias de conteúdo”. Ao contrário, ela é um “conjunto de noções e conceitos determinados”, muitos dos quais derivados da Filosofia, como vimos nas frases apresentadas. Portanto, a Filosofia está presente na linguagem que utilizamos, mesmo que não tenhamos consciência disso. Daí por que, para Gramsci: “Linguagem significa também cultura e filosofia (ainda que no nível do senso comum)”.
O senso comum é o conjunto de valores, crenças, opiniões, preferências, que constitui a nossa visão de mundo e que orienta nossas ações e escolhas cotidianas. Em geral é assimilado acriticamente, sem qualquer questionamento. A exemplo do que acontece com a linguagem, muitos desses valores e crenças têm origem na Filosofia, mas nós os assimilamos espontaneamente, sem nos darmos conta de sua origem. Simplesmente pensamos e vivemos de uma determinada maneira, acreditamos em certo grupo de valores, defendemos alguma posição política, ideológica ou religiosa, e assim por diante, sem, no entanto, nos preocuparmos em fundamentar nossas opiniões. Ao contrário, contentamo-nos com argumentos superficiais, muitas vezes até inconsistentes ou contraditórios.
O “bom senso”, por sua vez, “é algo que se contrapõe ao senso comum” e, nesse sentido, “coincide com a filosofia”. Enquanto o senso comum é acrítico, espontâneo, irrefletido, o bom senso implica refletir, tomar consciência de que os acontecimentos possuem uma dimensão racional e que, portanto, devem ser compreendidos e enfrentados também de forma racional, a fim de se obter uma orientação consciente para a ação, evitando se deixar levar por “impulsos instintivos e violentos”.
Esse “bom senso” é o que Gramsci chamou de “núcleo sadio do senso comum”. Ou seja, mesmo no nível do senso comum é possível refletir, pensar de maneira crítica sobre a realidade, tomar consciência dela e agir de modo coerente com essa consciência. E isso, de certo modo, já é “filosofar”, pelo menos um filosofar ao nível do senso comum. De fato, não é raro vermos pessoas simples, às vezes com pouca ou nenhuma escolaridade, que revelam um entendimento aguçado e bem elaborado da realidade em que vivem.
Finalmente a Filosofia está presente na religião porque também na experiência religiosa nos deparamos com questões e conceitos (Deus, alma, morte etc.) que foram e continuam sendo objeto da reflexão e da elaboração dos filósofos.
Portanto, se a Filosofia está contida na linguagem, no senso comum, no bom senso e na religião, podemos dizer então que ela está presente em todas as dimensões da vida humana, sendo, portanto, familiar a todas as pessoas. Afinal, toda atividade humana, mesmo aquelas que são predominantemente práticas (as diversas formas de trabalho manual, por exemplo), é sempre acompanhada de um pensar, de um saber, em suma, de um trabalho intelectual, racional, reflexivo. É nesse sentido que podemos afirmar que “todos os homens são ‘filósofos’”.
Texto 2 – Bom conselho
Chico Buarque
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança
Venha meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes
Antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
1. À luz dos conceitos de senso comum e bom senso extraídos do texto apresentado, comente o significado que têm para você os seguintes ditados:
Se conselho fosse bom não se dava de graça. É só dormir que a dor passa. Quem brinca com fogo acaba se queimando. Quem espera sempre alcança. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Pense duas vezes antes de agir. Devagar se vai ao longe. Quem semeia vento colhe tempestade.
2. Em seguida, compare-os à versão em que aparecem na canção Bom conselho, de Chico Buarque, e responda:
a) O que a inversão, efetuada por Chico Buarque, provoca nos ditados?
b) O que foi preciso ao compositor para chegar ao resultado por ele obtido?
c) Como os conceitos de senso comum e bom senso podem ser associados a essas duas versões dos ditados?
PESQUISA INDIVIDUAL
1. Encontre o poema Operário em construção, de Vinicius de Morais, e, valendo-se dos conceitos de senso comum e bom senso, analise a trajetória percorrida pela consciência do operário.
1. Reflita por alguns instantes sobre o significado da afirmação:
Em seguida, responda: Você vê alguma relação entre a frase anterior e a formulada por Gramsci?
2. Observe que a palavra “filósofos” aparece entre aspas. O que isso quer dizer?
Todo brasileiro é um técnico de futebol, embora nem todos exerçam essa função profissionalmente.
Todos os homens são “filósofos”.
Leitura e Análise de Texto
Filósofos e “filósofos”
Se “todos os homens são ‘filósofos’”, como quer Gramsci, qual é, então, a diferença entre o filosofar de uma pessoa comum e o de um filósofo profissional ou especialista? O próprio autor esclarece: “O filósofo profissional ou técnico não só ‘pensa’ com maior rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do que os outros homens, mas conhece toda a história do pensamento, isto é, sabe as razões do desenvolvimento que o pensamento sofreu até ele e está em condições de retomar os problemas a partir do ponto em que eles se encontram após terem sofrido a mais alta tentativa de solução etc. Ele tem, no campo do pensamento, a mesma função que nos diversos campos científicos têm os especialistas.”1
Trocando em miúdos, podemos dizer que o filósofo especialista: pensa, reflete, raciocina observando mais cuidadosamente as regras da lógica e os procedimentos metodológicos que utiliza; conhece a história do pensamento, isto é, a história da Filosofia; é capaz de analisar os problemas de seu tempo à luz da contribuição dos filósofos do passado que já se debruçaram sobre eles.
Mas se existe essa diferença entre o filósofo especialista e o não especialista, por que então afirmar que “todos os homens são ‘filósofos’?” Justamente para combater e destruir aquele preconceito de que a Filosofia é uma atividade muito difícil e restrita a uma minoria.
É importante perceber que a propagação desse preconceito cumpre uma função política conservadora, na medida em que afasta a Filosofia do contato com as massas, com o povo, com as pessoas mais simples. Dessa forma, impedidas de se apropriar dos conceitos e das teorias elaboradas pelos filósofos, as pessoas ficam desprovidas dessas ferramentas intelectuais que lhes permitiriam superar mais facilmente o senso comum e adquirir um conhecimento mais crítico e elaborado da realidade em que vivem.
Além disso, cabe afirmar que todos os homens são “filósofos” para deixar claro que todas as pessoas são potencialmente capazes de avançar de um “filosofar” espontâneo, assistemático, restrito ao senso comum, para um filosofar mais elaborado e rigoroso, semelhante ao praticado pelos filósofos especialistas. Para isso, é necessário que a Filosofia e os filósofos estejam em permanente contato com o povo, a fim ajudarem a promover um avanço cultural de massa e não apenas de pequenos grupos intelectuais. Só através desse contato é que uma filosofia se torna “histórica”, depura-se de elementos intelectualistas de natureza individual e se transforma em “vida”.
1. Leia atentamente o texto apresentado e responda:
a) Qual é a diferença entre o “filósofo” e o filósofo especialista, segundo Gramsci?
b) Qual é o objetivo de Gramsci ao afirmar que todos os homens são “filósofos”?
c) Explique por que a ideia de que a Filosofia é uma atividade muito difícil e acessível apenas a poucos privilegiados é politicamente conservadora.
2. Para você, o ensino de Filosofia na escola pode ser uma forma de aproximá-la do povo e de promover um avanço de massa? Justifique.
Leia o texto a seguir e, com base no que estudou, explique o sentido das palavras do autor
Leitura e Análise de Texto
“É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar, preliminarmente, que todos os homens são ‘filósofos’, definindo os limites e as características dessa ‘filosofia espontânea’ peculiar a ‘todo mundo’, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ser e de agir que se manifestam naquilo que se conhece geralmente por ‘folclore’.”
A Filosofia como amor pelo saber
1. Interprete e escreva o que entendeu sobre a frase: O filósofo é aquele que se situa entre a ignorância e a sabedoria.
2. Com base no que estudou até aqui, escreva uma breve definição de Filosofia. A Filosofia é:
3. Qual é a diferença entre saber alguma coisa e opinar sobre ela?
Leitura e Análise de Texto
O que é, afinal, a Filosofia?
Comecemos pela origem da palavra. Filosofia vem do grego (philo = amigo ou amante + sophia = saber, sabedoria) e significa amor ou amizade pelo saber. Quem ama sente-se carente do objeto amado e, por isso, vai à sua procura. No caso do filósofo, como o objeto de seu desejo é o saber, o conhecimento, é este que ele busca.
Para explicar o sentido dessa atitude de busca do saber, própria da Filosofia, Platão, em sua obra O banquete, recria, pela boca de Sócrates, o mito do nascimento do Amor.
Quando nasceu Afrodite, conta Sócrates, os deuses deram um banquete para celebrar a ocasião. Entre eles, encontrava-se também Recurso, filho de Prudência. Quando o jantar terminou, Pobreza chegou e postou-se à porta para esmolar. Recurso havia se embriagado e, dirigindo-se ao jardim de Zeus, adormeceu. Pobreza, aproveitando-se da situação, deitou-se ao seu lado e concebeu o Amor. Assim, gerado no dia do nascimento de Afrodite, Amor tornou-se seu companheiro e servo e, ao mesmo tempo, amante do belo, pois Afrodite é bela.
Por ser filho de Pobreza e Recurso, ele é, por parte de mãe, “sempre pobre”, carente e padecedor de muitas necessidades; por parte de pai, porém, “ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista.”
Por essa sua natureza dividida, Amor está no meio entre a sabedoria e a ignorância. A sabedoria é a condição daquele que já possui o saber e, por isso, não sente necessidade de buscá-lo. É o caso dos deuses. Por isso os deuses não filosofam. Os ignorantes, por sua vez, embora nada saibam, julgam saber o suficiente e, por isso, não anseiam por saber mais. Logo, também não filosofam.
Quem então filosofa?, pergunta Sócrates. Aqueles que estão entre esses dois extremos: a sabedoria e a ignorância. Um deles é o Amor. “Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre.”
Mas o saber que o filósofo almeja não é de um tipo qualquer. Não é, por exemplo, aquele do senso comum que se expressa como opinião e ao qual os gregos antigos denominavam doxa. O saber buscado pelo filósofo é Sophia, isto é, um saber bem fundamentado, amparado em demonstrações racionais, consistentes e passível de ser considerado verdadeiro, independentemente das opiniões particulares. O mesmo tipo de saber buscado por Sócrates por meio de seu método dialético. Não fosse assim o termo philosopho (amante do saber) deveria ser substituído por philodoxo (amante da opinião).
Com base na leitura do texto apresentado, responda:
1. Em que sentido Platão afirma que filosofam aqueles que se encontram entre a sabedoria e a ignorância?
2. Em que consiste a diferença entre o philósopho e o philodoxo?
3. Qual desses adjetivos se aplica melhor a você? Justifique.
A Filosofia como reflexão
1. Comente o significado da citação: “Se toda reflexão é pensamento, nem todo pensamento é reflexão.”
2. Em seguida, contemplando a obra de arte O pensador, responda: O que ela lhe diz sobre o conceito de reflexão?
Leitura e Análise de Texto
A Filosofia como reflexão
Vimos que etimologicamente a palavra filosofia significa busca do conhecimento verdadeiro, ou seja, busca da verdade. A forma pela qual a Filosofia realiza essa busca da verdade é por meio da reflexão. Mas o que é refletir?
Como nos lembra o professor Dermeval Saviani1: “se toda reflexão é pensamento, nem todo pensamento é reflexão”. O pensamento é um ato corriqueiro, singelo, espontâneo, que realizamos descompromissadamente a todo instante, até mesmo sem perceber. A reflexão, por sua vez, é uma atitude mais consciente, mais comprometida, que implica pensar mais profundamente sobre um determinado assunto, repensá-lo, problematizá-lo, submetendo-o à dúvida, à crítica, à análise, buscando seu verdadeiro significado.
1. Explique o significado da frase: Assim, o pensamento pode ser reflexivo ou não. Acontece que nem toda reflexão é filosófica. Segundo Saviani, para isso ela precisa satisfazer, ao mesmo tempo, a pelo menos três exigências:
• ser radical, isto é, analisar em profundidade o problema em questão, buscando chegar às suas raízes, aos seus fundamentos;
• ser rigorosa, ou seja, proceder com coerência, de forma sistemática, segundo um método bem definido para propiciar conclusões válidas e bem fundamentadas;
• e ser de conjunto, isto é, tomar o objeto em questão não de forma isolada e abstrata, mas numa perspectiva de totalidade, ou seja, levando em consideração os diversos fatores que, num dado contexto, o determinam e condicionam.
Além disso, vale lembrar que filosofar implica questionar o senso comum. Para tanto, é preciso utilizar certos conceitos e teorias necessários para a compreensão mais aprofundada dos temas e problemas sobre os quais se vai refletir. Ora, como estes conceitos e teorias estão contidos nas obras dos filósofos, é importante estudar tais obras, não para memorizar mecanicamente, mas para compreendê-las e a partir desta compreensão questionar o senso comum e transformar nossas representações primeiras sobre diferentes temas da vida cotidiana, da vida em sociedade.
Mas, ao entrarmos em contato com a obra de um filósofo, não apreendemos apenas os conceitos por ele desenvolvidos. Apreendemos também o seu jeito de pensar, de raciocinar, de argumentar, de organizar as ideias, enfim, o seu “estilo reflexivo”2, o que também nos ajuda a melhorar cada vez mais nosso próprio jeito de pensar. É dessa forma, estudando o pensamento dos filósofos e nos exercitando mais e mais na prática da reflexão, que nos tornamos cada vez mais filósofos.
A filosofia é uma “reflexão (radical, rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a realidade apresenta”.
2. Com base na definição de Filosofia proposta por Saviani, responda: Quem pode, afinal, filosofar?
Leitura e Análise de Texto
Para que serve a Filosofia? Qual é sua utilidade? Para responder a essa pergunta precisamos antes fazer algumas outras: O que entendemos por útil? Quem nos dá os critérios a partir dos quais consideramos algumas coisas úteis e outras inúteis? Conhecemos de fato esses critérios? Paramos para pensar sobre eles? Tomamos conscientemente a decisão de aceitá-los? Por que perguntamos sobre a utilidade de certas coisas e não de outras? Haveria pessoas ou grupos interessados em mostrar algumas coisas como úteis e outras como inúteis? Quando dizemos que, para nós, uma determinada coisa não serve para nada, estamos expressando um conhecimento efetivo sobre essa coisa ou, na verdade, apenas reproduzimos a “opinião” geral, o “senso comum”, a visão hegemônica a respeito dela?
Estamos agindo com autonomia e liberdade? Poderíamos formular ainda inúmeros outros questionamentos derivados daquele inicialmente apresentado. E, ao fazê-lo, já estaríamos nos situando dentro da Filosofia, isto é, já estaríamos, num certo sentido, filosofando. Afinal, filosofar é, também, não aceitar como verdadeira qualquer ideia sem antes submetê-la à dúvida, à investigação, à reflexão crítica e rigorosa. Ora, isso significa que, para demonstrar com consistência a utilidade ou inutilidade da Filosofia, ou de qualquer outra coisa, já teríamos que filosofar.
“[...] é preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, ‘particular’ de uma concepção do mundo ‘imposta’ mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos vários grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente [...] ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira crítica e consciente e, portanto, em ligação com este trabalho próprio do cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?”
Com base na leitura dos excertos apresentados, discuta com seus colegas:
1. Para que serve, afinal, a Filosofia?
2. É importante estudar Filosofia na escola?
CONTEÚDOS DAS SITUAÇÕES 1 E 2 - 2ª SÉRIE - 1º BIMESTRE - AVALIAÇÃO 01
O EU RACIONAL
Leitura e Análise de Texto
Não sei se vos devo falar das primeiras meditações que aqui fiz, pois elas são tão metafísicas e tão pouco comuns que talvez não sejam do agrado de todos. No entanto, a fim de que se possa julgar se os fundamentos que tomei são bastante firmes, acho-me, de certa forma, obrigado a falar delas. Há muito tempo eu notara que, quanto aos costumes, por vezes é necessário seguir, como se fossem indubitáveis, opiniões que sabemos serem muito incertas, como já foi dito acima; mas, como então desejava ocupar-me somente da procura da verdade, pensei que precisava fazer exatamente o contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, depois disso, não restaria em minha crença alguma coisa que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos às vezes nos enganam, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos levam a imaginar. E, porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo sobre os mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, julgando que eu era tão sujeito ao erro quanto qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões que antes tomara como demonstrações. E, finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos quando acordados também nos podem ocorrer quando dormimos, sem que nenhum seja então verdadeiro, resolvi fingir que todas as coisas que haviam entrado em meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas logo depois atentei que, enquanto queria pensar assim que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade – penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de a abalar, julguei que podia admiti-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que buscava.
Depois, examinando atentamente o que eu era e vendo que podia fingir que não tinha nenhum corpo e que não havia nenhum mundo, nem lugar algum onde eu existisse, mas que nem por isso podia fingir que não existia; e que, pelo contrário, pelo próprio fato de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, decorria muito evidentemente e muito certamente que eu existia; ao passo que, se apenas eu parasse de pensar, ainda que tudo o mais que imaginara fosse verdadeiro, não teria razão alguma de acreditar que eu existisse; por isso reconheci que eu era uma substância, cuja única essência ou natureza é pensar, e que, para existir, não necessita de nenhum lugar nem depende de coisa alguma material. De sorte que este eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, e até mais fácil de conhecer que ele, e, mesmo se o corpo não existisse, ela não deixaria de ser tudo o que é.
Depois disso, considerei, de modo geral, o que uma proposição requer para ser verdadeira e certa; pois, já que eu acabava de encontrar uma que sabia ser tal, pensei que também deveria saber em que consiste essa certeza. E, tendo notado que em penso, logo existo nada há que me garanta que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que para pensar é preciso existir, julguei que podia tomar por regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras, havendo, porém, somente alguma dificuldade em distinguir bem quais são as que concebemos distintamente. [...]
DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 57, 58, 59, 60 e 61.
A Filosofia cartesiana do "eu penso" nos ajudará na construção do sujeito ético, pois a compreensão de nossas ações, bem como a construção de relações sociais de acordo com referências democráticas, por exemplo, exigem reflexões que se fundamentam em nossa capacidade de cogitar, isto é, de questionar o que vivemos e o que desejamos viver. A Filosofia exige a habilidade da reflexão, que também é critério absoluto do agir ético.
O individuo consciente de sua capacidade e de sua necessidade de pensar pode exercitá-las, na medida em que aprende como fazer. A importância do "eu penso" cartesiano é uma tentativa de criar condições para o desenvolvimento racional do indivíduo ético.
Como pensamos?
Há várias maneiras de dividir as atividades do intelecto. Para efeito didático, escolhemos, da tradição filosófica, as seguintes: juízo, percepção e razão. A partir da ideia do "eu penso", reflitam sobre seus pensamentos, segundo as funções intelectuais assim consideradas:
• Juízo - atividade intelectual de escolha, avaliação e decisão (Aristóteles, Da Alma, III, 495). Da pergunta fundamental - "Qual o critério ou a regra dos nossos juízos?" -, podemos derivar outras tantas, como: por que escolhemos isto e não aquilo? Por que achamos mais importante isto e não aquilo? Por que tomamos esta decisão e não outra?
• Percepção - Lembrando que percepção é o exame das sensações, podemos partir disso para conhecer o mundo. Por meio da percepção, nós não apenas ouvimos o som em uma festa, mas podemos compreender o ritmo, verificar se as pessoas estão felizes e enxergar seus movimentos de dança etc. Assim, as questões de caráter ético que podemos fazer agora são: como melhorar a percepção do mundo? Como sentir melhor e distinguir o que nos cerca? Por que um entendimento errado ou um mau juízo podem produzir tanto mal?
• Razão - Por meio da razão, que é lógica, nós temos a regra para os cálculos em nosso pensamento. O que julgamos, percebemos, lembramos e até imaginamos, em geral, podem obedecer às regras da lógica. Assim, a pergunta ética que podemos propor é: como aprofundar nossa racionalidade, visando a fazer o bem?
FACULDADES DO INTELECTO - FUTEBOL - PAQUERA - ENTREVISTA DE EMPREGO
Juízo - Decidir para qual jogador passar a bola. Escolher a hora de driblar o zagueiro. Escolher com quem você quer jogar. Decidir a hora certa de se aproximar da pessoa. Escolher o assunto para começar a conversa. Julgar se você vai ou não ficar com essa pessoa. Decidir com que roupa ir para a entrevista. Decidir a melhor maneira de cumprimentar o entrevistador. Julgar o que ressaltar no currículo.
Percepção - Tentar sentir o time adversário, o que os deixa desanimados, tensos ou os estimula a jogar melhor. Perceber como é o árbitro, se ele é exigente, se é justo, se é rápido. Sentir a vibração ou descontentamento da torcida. Sentir se a pessoa em quem você está interessado tem ou não interesse por outra pessoa. Sentir se, neste momento, a pessoa está preparada para o que você tem a dizer. Sentir se ficar com essa pessoa realmente vai ser legal. Perceber qual a personalidade do entrevistador, se ele curte brincadeiras ou piadinhas. Sentir se o entrevistador está gostando do que você fala durante a entrevista.
Razão - Como organizar todas essas informações. Montar uma estratégia com o time, de forma que todas as informações que temos nos ajudem a ganhar. Falar de forma clara para os atacantes: como eles devem se posicionar e qual o esquema de jogo. Como elaborar uma estratégia para conquistar a pessoa. Deixar claras as suas intenções. Saber articular as palavras, para que não fique nada que deixe a pessoa constrangida. Deduzir o que realmente o entrevistador deseja. Não se mostrar confuso na hora de responder às perguntas. Mostrar que sabe articular ideias e, assim, convencer o entrevistador a respeito da sua inteligência, merecendo, portanto, o emprego.
INTRODUÇÃO À ÉTICA
CINCO JOVENS DE CLASSE ALTA AGRIDEM DOMÉSTICA.
Uma empregada doméstica, de 32 anos, foi espancada e roubada, na manhã do dia 24 de junho de 2007, quando saía do seu trabalho. Os espancadores eram cinco jovens ricos, todos estudantes. Eles não apresentavam sinais de ter ingerido álcool ou outra substância química.
A mulher relatou à polícia que, por volta das 6h30, estava em um ponto de ônibus, perto do apartamento onde trabalha e mora, para ir a uma consulta médica. De repente, saindo de um automóvel, os cinco jovens começaram a xingá-la e a chutá-la na cabeça e na barriga. Depois, roubaram sua bolsa, com seus documentos, 47 reais e um celular, que nem tinha sido completamente pago. Após a agressão, ela voltou ao prédio em busca de ajuda.
Um taxista, que estava próximo ao local do crime, anotou a placa do carro e notificou a polícia, que prendeu os jovens. Os agressores confessaram o crime, mas nada falaram sobre os motivos que os levaram a cometer o ato de crueldade.
DIFERENÇAS ENTRE MORAL E ÉTICA.
MORAL E ÉTICA
A moral é um conjunto de princípios e regras socialmente definidos e que devem ser inculcados nos indivíduos para padronizar condutas, costumes e valores. Cada cultura tem uma moral, isto é, regras sobre o bem e o mal, o permitido e o proibido.
A reflexão ética deve questionar, problematizar as normas morais e, por isto, a ética não é essencialmente normativa. A ética deve refletir sobre as regras morais para garantir solidariedade, respeito, e, em última análise, a preservação da vida.
VÍCIOS E VIRTUDES EM ARISTÓTELES
(Vício por deficiência) – (Virtudes - atitudes que nos levam à felicidade) – (Vício por excesso)
Covardia: ter medo de tudo ou deixar que o medo o domine.
Coragem: saber enfrentar os medos e perigos, calculando a hora de agir.
Temeridade: não ter medo de nada e se arriscar em todas as situações de perigo.
Insensibilidade: não desejar nada e ser insensível.
Temperança: saber usar os prazeres sem se prejudicar.
Libertinagem: viver somente atrás de prazeres.
Avareza: jamais gastar o dinheiro e querer guardar sempre o que tem, além de ganhar mais.
Liberalidade: saber gastar o dinheiro, escolhendo onde gastá-lo.
Esbanjamento: nunca economizar com nada, gastar sem pensar.
Vileza: nunca usar nada bonito – roupa, por exemplo – e criticar os outros por isso.
Magnificência: saber usar coisas bonitas.
Vulgaridade: exagerar nas coisas bonitas.
Modéstia: achar que é menor que os outros, ou mais feio, ou errado.
Respeito próprio: reconhecer seus defeitos e qualidades e não deixar as pessoas diminuírem sua autoestima.
Vaidade: preocupar-se apenas com sua grandiosidade e jamais aceitar seus defeitos.
Indolência: nunca fazer nada para si e para os outros, procurando só o que é mais fácil.
Prudência: saber a hora e como agir para alcançar seus objetivos.
Ambição: ir atrás de suas coisas, sem pensar em nada.
Indiferença: ignorar as pessoas completamente.
Gentileza: ser agradável com todas as pessoas, conter a raiva.
Irascibilidade: deixar que as emoções tomem conta, a ponto de ser violento com as pessoas, nas palavras e nas ações.
Descrédito próprio: Não se achar bom em nada.
Veracidade: ser verdadeiro e receber crédito por isso, saber seus limites, saber que é bom em alguma coisa e que não é bom em outras.
Orgulho: achar-se melhor que os outros, nunca aceitar que precisa dos outros.
Rusticidade: nunca usar a inteligência para viver, agindo sempre por instinto.
Agudeza de espírito: saber usar a inteligência de modo brilhante.
Zombaria: humilhar quem não tem as habilidades intelectivas.
Enfado: ser chato, pesado, incapaz de dizer uma coisa boa para as pessoas.
Amizade: saber se relacionar com as pessoas por meio do afeto e da inteligência.
Condescendência: querer ser amigo de todos, perdoar tudo de todos, nunca ver maldade nos outros.
Desavergonhamento: mostrar tudo o que tem a ponto de não sobrar nada para si.
Comedimento: saber como se mostrar para os outros.
Timidez: ter medo de mostrar seus sentimentos e seus pensamentos para os outros.
Malevolência: não se importar com a maldade e usá-la a seu favor.
Justa indignação: saber quando uma coisa está certa ou errada.
Inveja: não aceitar que as pessoas tenham sucesso.
ALGUMAS MÁXIMAS DE EPICURO
I. Aquele que dispõe de plenitude e de imortalidade não tem inquietações nem perturba os outros; por isso está isento de impulsos de cólera ou de benevolência, já que tudo isso é próprio de quem tem fraquezas.
II. A Morte nada é para nós. Com efeito, aquilo que está decomposto é insensível e a insensibilidade é o nada para nós.
III. O limite da amplitude dos prazeres é a supressão de tudo que provoca dor. Onde estiver o prazer, e durante o tempo em que ele ali permanecer, não haverá lugar para a dor corporal ou o sofrimento mental, juntos ou separados.
IV. A dor contínua não dura longamente na carne. A que é extrema permanece muito pouco tempo e a que ultrapassa um pouco o prazer corporal não persiste muitos dias. Quanto às doenças que se prolongam, elas permitem à carne sentir mais prazer do que dor.
[...]
VIII. Nenhum prazer é em si mesmo um mal, mas aquilo que produz certos prazeres acarreta sofrimentos bem maiores do que os prazeres.
IX. Se todo prazer pudesse ter se acumulado, não só persistindo no tempo, mas também percorrendo a inteira composição do nosso corpo, ou pelo menos as principais partes de nossa natureza, então os prazeres não difeririam entre si.
[...]
XVII. O justo desfruta de plena serenidade; o injusto, porém, está cheio de maior perturbação.
[...]
XXIII. Se combates todas as tuas sensações, nada disporás de referência nem mesmo para discernir corretamente aquelas que julgas deverem ser rejeitadas.
[...]
XXVII. De tudo aquilo de que dispõe a sabedoria para a felicidade de toda nossa vida, de longe o mais importante é a preservação da amizade.
EPICURO FEZ, AINDA, RECOMENDAÇÕES PRECISAS SOBRE COMO CHEGAR À FELICIDADE:
1. Não tenha medo dos deuses. Os deuses são felizes, e seres felizes não estão preocupados com a vida dos outros.
2. Não tenha medo da morte. A morte nada mais é do que a separação dos átomos.
3. O prazer está à disposição de todos. Ele é o fim das dores e o sossego.
4. O mal dura pouco. O mal é a dor e dura pouco; o máximo que ela pode fazer é levar à morte, que, no fundo, é nada. Quando a dor termina, começa o prazer.
Prof. Manoelito
CONTEÚDOS DAS SITUAÇÕES 1 E 2 - 1 ª SÉRIE - 1º BIMESTRE - AVALIAÇÃO 01
CRIANDO UMA IMAGEM CRÍTICA DA FILOSOFIA
Leitura e Análise de Texto
“Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente, e nem tão ardentemente, com o corpo e com as riquezas, como devem preocupar-se com a alma, para que ela seja quanto possível melhor, e vou dizendo que a virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vem, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto públicos como privados.”PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução Maria Lacerda de Souza. Disponível em:
. Acesso em: 6 out. 2009.
Leitura e Análise de Texto
“Ao considerar o conhecimento como se encontrando entre as coisas mais belas e dignas do maior valor, sendo umas mais penosas do que outras, quer em virtude do seu rigor, quer em virtude de dizer respeito a coisas mais belas e elevadas, decidimos, devido a essas duas mesmas causas, considerar toda a investigação respeitante à alma como sendo de importância fundamental. Além disso, parece esta investigação também constituir uma contribuição especial para todo o conhecimento da verdade, particularmente para o estudo da natureza – a alma é, com efeito, o princípio de todos os seres vivos. Por isso procuramos, ao investigar, examinar a natureza e a essência da alma em primeiro lugar e, depois, os seus atributos fundamentais.” ARISTÓTELES. Da alma. Tradução Carlos Humberto Gomes. Lisboa: Edições 70, 2001. p. 23.
Para os gregos, a “alma” era o lugar onde se situavam as ideias; mais tarde, esse “espaço” para ideias foi chamado de intelecto. Diferente do corpo, o intelecto é inteligível. Mas, assim como o corpo, ele pode ser melhorado.
REFLEXÃO DO ESPELHO X A REFLEXÃO INTELECTUAL
Reflexão do espelho: Necessita somente de luz - Apenas reflete o que está à sua frente - Apenas reflete as imagens presentes - Apenas reflete o que é visível - Caso não funcione direito, pode ser descartado - Não pode refletir a si mesmo.
A reflexão intelectual: precisa de ideia e conhecimento. O intelecto pode refletir sobre coisas escondidas ou ausentes, assim como pessoas que moram longe e de quem gostamos;
"Reflete sobre coisas do passado e pensa o futuro. em relação ao presente, ela trata dos sentidos, dos valores e das interpretações que fazemos do que podemos ver e do que apenas percebemos da realidade;
Reflete sobre coisas “invisíveis”, ou abstratas, como o amor, a saudade ou as ideias, sem esquecer a Filosofia.
COMO FUNCIONA O INTELECTO?
INTRODUÇÃO AO EMPIRISMO E AO CRITICISMO
JOHN LOCKE
Leitura e Análise de Texto
“Suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será suprida? De onde lhe provém este vasto estoque, que a ativa e que a ilimitada fantasia do homem pintou nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra: da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nosso entendimento com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de conhecimento jorram todas as nossas ideias, ou as que possivelmente teremos.
Primeiro, nossos sentidos, familiarizados com os objetos sensíveis particulares, levam para a mente várias e distintas percepções das coisas, segundo os vários meios pelos quais aqueles objetos a impressionaram. Recebemos, assim, as ideias de amarelo, branco, quente, frio, mole, duro, amargo, doce e todas as ideias que denominamos qualidades sensíveis.
Quando digo que os sentidos levam para a mente, entendo com isso que eles retiram dos objetos externos para a mente o que produziu estas percepções. A esta grande fonte da maioria de nossas ideias, bastante dependente de nossos sentidos, dos quais se encaminham para o entendimento, denomino sensação.
A outra fonte pela qual a experiência supre o entendimento com ideias é a percepção das operações de nossa própria mente, que se ocupa das ideias que já lhe pertencem. Tais operações, quando a alma começa a refletir e a considerar, suprem o entendimento com outra série de ideias que não poderia ser obtida das coisas externas, tais como a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o raciocinar, o conhecer, o querer e todos os diferentes atos de nossas próprias mentes.
[...] Mas, como denomino a outra de sensação, denomino esta de reflexão: ideias que se dão ao luxo de serem tais apenas quando a mente reflete sobre as próprias operações”.
LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. Tradução Anoar Aiex e E. Jacy Monteiro. São Paulo: Nova Cultural, 1983. (Os Pensadores). p. 159-160.
A TELEVISÃO OU O RÁDIO X O ENTENDIMENTO OU O INTELECTO
A televisão ou o rádio: Capta o mundo pela antena ou cabo. Decodifica o sinal. Depois de decodificar, transforma o sinal em imagem ou som. Só decodifica o sinal dos canais. Não aprende nada com o que capta. Não pode refletir sobre o que capta.
O entendimento ou o intelecto: Capta o mundo pelos cinco sentidos. Analisa e interpreta as experiências. Depois de interpretá-las, transforma as experiências em ideias. Interpreta tudo o que aparece aos sentidos e pode experimentar outras coisas. Aprende ou pode aprender com tudo o que capta. Pode refletir sobre o que consegue captar e, inclusive transmitir para outras pessoas os conhecimentos.
Leitura e Análise de Texto
Introdução
Podemos afirmar que todos os nossos conhecimentos têm origem em nossa experiência. Se fosse ao contrário, por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser exercitada senão por objetos que tocam nossos sentidos e em parte produzem por si mesmos representações, em parte colocam em movimento a atividade do nosso entendimento para compará-las, reuni-las ou separá-las e, dessa maneira, proceder à elaboração da matéria informe das impressões sensíveis até um conhecimento das coisas, o que se denomina experiência?
Portanto, no tempo nenhum conhecimento antecede a experiência; todos começam por ela. Porém, nosso conhecimento empírico é formado pelo que recebemos das impressões e pelo que a nossa faculdade de conhecer lhe adiciona estimulada pelas impressões dos sentidos; aditamento que somente distinguimos por longa prática que nos capacite a separar esses dois elementos.
Eis aí uma questão que merece reflexão: Existe mesmo um conhecimento que não depende da experiência e das impressões dos sentidos?
KANT, Immanuel, Crítica da razão pura. Tradução Lucimar A. Coghi Anselmi; Fulvio Lubisco. São Paulo: Icone, 2007. p. 5 (Coleção Fundamentos do Direito).
Prof. Manoelito
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
O que é Educação?
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
A Procura da Felicidade
A Procura da Felicidade
Vivemos em um mundo extremamente competitivo, onde todos lutam para conquistar o seu lugar no espaço. Muitas vezes, essas lutas se transformam em uma verdadeira guerra de todos contra todos, uns lutam para conseguir o seu objetivo com honestidade e responsabilidade. Outros lutam sem se preocupar com o próximo, passando por cima de tudo e de todos, ignorando os bons costumes e atropelando a ética.
Ainda temos aqueles que pensam ser a riqueza a própria felicidade. Se parasse um pouco para refletir, descobriria que a riqueza é apenas um meio que, se for racionalmente utilizado, poderá trazer momentos felizes.
Segundo Aristóteles, tudo o que fazemos em nossas vidas é em busca de algum bem, esse bem não é fim, mas, um meio para se alcançar a felicidade que é o bem maior e desejado por todos.
O que é felicidade?
Será que a felicidade realmente existe?
Qual a melhor forma de alcançá-la?
Felicidade é o estado de uma pessoa feliz, uma sensação de bem estar e contentamento, que pode ocorrer por diversos motivos. A felicidade é um momento durável de satisfação, onde o indivíduo se sente plenamente feliz e realizado, um momento onde não há nenhum tipo de sofrimento.
A felicidade é o que os antigos gregos chamavam de eudaimonia, um termo ainda usado em ética. Para as emoções associadas à felicidade, os filósofos preferem utilizar a palavra prazer.
Felicidade não é o que acontece na nossa vida, mas como nós elaboramos esses acontecimentos. “A diferença entre o sábio e o ignorante é que o primeiro sabe aproveitar suas dificuldades para evoluir, enquanto o segundo se sente vítima de seus problemas”
Para Sócrates, o homem não é só o corpo, mas, principalmente, a alma. Assim, a felicidade era o bem da alma que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa.
Para Platão, todas as coisas têm sua função. Assim, como a função do olho é ver e a do ouvido, ouvir, a função da alma é ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e a justiça, ela obtém a felicidade.
Aristóteles conclui que a maior virtude de nossa “alma racional” é o exercício do pensamento, pelo quê, segundo ele, a felicidade chega a se identificar com a atividade pensante do filósofo, a qual, inclusive, aproxima o ser humano da divindade. Ele considera a política como uma extensão da ética e, nesse sentido, para ele também é uma função do Estado criar condições para o cidadão ser feliz.
O Filósofo alemão Immanuel Kant definiu a felicidade como a "condição do ser racional no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com seu desejo e vontade".
E para você o que é “FELICIDADE”?
Bibliografia
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-e-felicidade-o-que-e-ser-feliz-segundo-os-grandes-filosofos-do-passado-e-do-presente.htm#fotoNav=7
Prof. Manoelito
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
1ª SÉRIE CONTEÚDOS PARA AVALIAÇÃO (2) (4º BIMESTRE)
EE BATISTA RENZI
DISCIPLINA: FILOSOFIA
ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS
ETAPA DA EDUCAÇÃO BÁSICA: ENSINO MÉDIO
1ª SÉRIE – VOLUME 4 - 4º BIMESTRE
TEMAS E CONTEÚDOS: OS DIREITOS HUMANOS E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA
PROF. MANOELITO
OS DIREITOS HUMANOS
O objetivo deste texto é estudar os Direitos Humanos e refletir sobre eles.
PESQUISA INDIVIDUAL
1. Realize uma pesquisa sobre o processo de elaboração do documento que se denomina Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os livros didáticos de História e outras obras presentes na biblioteca da escola trazem esta informação, e mesmo na internet você poderá encontrar relatos sobre o contexto no qual se originou o documento em questão. Registre a seguir uma síntese sobre o que encontrar.
2. Além de estudar o processo que deu origem à Declaração Universal dos Direitos Humanos, pesquise a respeito das leis brasileiras que se fundamentam na defesa dos direitos humanos. Procure especificamente a lei de 13/07/1990, sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, e a lei de 01/10/2003, sobre o Estatuto do Idoso. Registre comentários sobre estas leis e a Declaração dos Direitos Humanos e procure destacar os avanços e as limitações presentes nestes documentos.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
“Adotada e proclamada pela Resolução no 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,
Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão,
Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla; que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades; que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso.
A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.
Leitura e Análise de Texto
Artigo I
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
Artigo II
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Artigo III
Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.
Artigo V
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou
degradante.
Artigo VI
Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.
Artigo VII
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo VIII
Toda pessoa tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo IX
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo X
Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo XI
1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.
Artigo XII
Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Artigo XIII
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
Artigo XIV
1. Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
Artigo XV
1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo XVI
1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.
Artigo XVII
1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
Artigo XVIII
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.
Artigo XIX
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
Artigo XX
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo XXI
1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.
Artigo XXII
Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo XXIII
1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.
Artigo XXIV
Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.
Artigo XXV
1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social.
Artigo XXVI
1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada aos seus filhos.
Artigo XXVII
1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.
Artigo XXVIII
Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.
Artigo XXIX
1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
Artigo XXX
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.” Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: . Acesso em: 23 abr. 2010.
Com um colega, escolha dois artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e analise sua realização prática no Brasil. Para tanto, responda se os artigos são cumpridos ou não, e apresente as hipóteses ou informações para justificar este não cumprimento. Aponte também algumas sugestões para a efetiva realização dos artigos. Registre no seu caderno conteúdo desta análise.
1. Selecione imagens de revistas, da internet e de jornais e, ainda, poesias ou letras de música sobre a violação dos Direitos Humanos no Brasil. Com esse material, você poderá elaborar cartazes para serem afixados em diferentes espaços da escola, contribuindo, assim, para visualização e conscientização dessas violações.
2. Faça uma análise dos programas de televisão a que você gosta de assistir e verifique se eles colaboram ou não para a reflexão sobre a violação dos Direitos Humanos. Registre no caderno seus comentários.
3. Considerando a afirmação presente no Artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de que: “Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios”, comente os impedimentos para que este direito se apresente de forma generalizada para todos os brasileiros.
4. Elabore uma redação sobre o tema: a Declaração dos Direitos Humanos como avanço teórico na perspectiva democrática e as exigências para sua efetiva garantia.
Visite os sites aqui listados e confira informações importantes sobre o tema.
• BIBLIOTECA Virtual de Direitos Humanos. Disponível em: . Acesso em: 23 abr. 2010.
• FóRUM Brasileiro de Segurança Pública. Disponível em: . Acesso em: 23 abr. 2010.
• NAÇõES Unidas no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 23 abr. 2010.
PARTICIPAÇÃO POLÍTICA
Neste texto, a discussão central será baseada nas questões relativas à participação política. Vamos iniciar com uma pergunta básica:
Como a expressão “participação política” se faz presente em sua experiência de vida?
Leitura e Análise de Texto
Participação política: bem mais do que um voto
A “participação política” é uma expressão que pode ser associada a diferentes práticas, que reúnem pessoas em torno de objetivos comuns para a vida comunitária, quer seja essa comunidade um bairro, quer seja uma aldeia, uma cidade, um Estado ou um país. Em nossa sociedade, a participação política pode ser identificada nas seguintes práticas:
• Eleição de representantes para legislar ou executar propostas de interesse geral; exercício do papel de representante; participação em movimentos sociais e partidos políticos;
• Participação em entidades como sindicatos, grêmios e diretórios acadêmicos.
Para a maioria da população brasileira, a participação política resume-se ao momento da escolha de candidatos como representantes nos Poderes Legislativo e Executivo. O voto torna-se, assim, a principal atividade associada à participação política.
Os desafios políticos e sociais próprios da sociedade contemporânea exigem que a participação política se amplie para além do voto, caracterizando-se pelo acompanhamento das ações dos representantes legisladores – vereadores, deputados e senadores – e dos executores de leis e políticas públicas – prefeitos, governadores e o presidente da República – e também pela participação em movimentos sociais, de acordo com interesses da comunidade. Tais desafios constituem as novas relações de trabalho, com o fim de muitas conquistas trabalhistas, e a exclusão de grande número de pessoas em termos do acesso a bens como saúde, educação e moradia. Há também o desafio de controle da corrupção em todos os níveis, mas, sobretudo, no que se refere a desvios de recursos públicos.
A participação política adequada para enfrentar todos esses problemas não se limita ao voto, não se limita a eleger um candidato e deixar que ele faça o que bem entender. Trata-se de uma participação política que possa superar o individualismo e as práticas que garantem vantagens materiais e poder para alguns, em detrimento da maioria.
1. Como é possível acompanhar as ações dos representantes eleitos para cargos legislativos e executivos?
2. Por que os desafios do mundo atual exigem mais participação política para garantia dos Direitos Humanos?
3. PESQUISA EM GRUPO
Com seu grupo, reflita sobre as respostas obtidas nas entrevistas realizadas sobre as necessidades de sua comunidade. Ouça as respostas obtidas por seus colegas e discuta com eles os problemas que precisam de solução com mais urgência. Em seguida, apresente suas prioridades em um painel que contemple as necessidades de todos os grupos. Após as apresentações, você poderá escolher uma proposta, entre duas possibilidades, para ser negociada com o professor.
4. Como uma das justificativas para a participação política pode ser encontrada na necessidade de melhoria das comunidades, entreviste um morador do seu bairro, que pode ser uma pessoa de sua família ou de seu grupo de amizade, e pergunte: “O que nós precisamos, com urgência, em nossa comunidade? E como poderemos encaminhar essa proposta?” Registre a seguir o resultado da entrevista em seu caderno.
• Possibilidade 1 – Eleger uma necessidade indicada por todos os colegas da classe para escrever uma carta e solicitar a uma autoridade, como o prefeito, por exemplo, o encaminhamento de uma solução.
• Possibilidade 2 – Eleger uma necessidade por grupo para elaborar a carta para essa mesma autoridade.
Considerando qualquer uma das possibilidades, é interessante que você se organize com seus colegas para entrar em contato com movimentos sociais ou partidos políticos de sua cidade. A ideia é apresentar as necessidades priorizadas e também o conjunto levantado durante as entrevistas.
Com a vivência desse processo, você estará participando politicamente em uma perspectiva adequada aos desafios de sua cidade ou de seu bairro.
5. A participação política pode ser expressa por meio de diversas práticas. Destaque uma prática com a qual você se identifica e justifique sua resposta.
6. A participação política sempre se fez necessária, porém os problemas do mundo contemporâneo tornam essa participação urgente e levam à perspectiva de superação do individualismo e dos benefícios associados a apenas alguns privilegiados. Por quê?
2ª SÉRIE - CONTEÚDOS PARA AVALIAÇÃO (2) - (4º BIMESTRE)
EE BATISTA RENZI
DISCIPLINA: FILOSOFIA
ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS
ETAPA DA EDUCAÇÃO BÁSICA: ENSINO MÉDIO
2ª SÉRIE – VOLUME 4 - 4º BIMESTRE
TEMAS E CONTEÚDOS: A CONDIÇÃO HUMANA E A BANALIDADE DO MAL
PROF. MANOELITO
A CONDIÇÃO HUMANA E A BANALIDADE DO MAL
*Neste texto, vamos abordar a condição humana e a banalidade do mal com base em contribuições de Hannah Arendt. A partir disso, você será convidado a refletir sobre sua ação em meio à sociedade. Almeja-se com esse tema dar a vocês a possibilidade do exercício da reflexão crítica para pensar a condição humana.
Começaremos a nossa reflexão analisando a letra da música “Comida” de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto.
Comida
Bebida è água.
Comida é pasto.
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, bale.
A gente não quer só comida.
A gente quer a vida como a vida quer.
Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade.
A música é uma reflexão sobre o fato de que os seres humanos não se reduzem às suas necessidades materiais.
Dialogar e ler - A condição humana
Qual é a condição humana? O que é isso? Para Hannah Arendt, a condição de homens e mulheres consiste em três atividades fundamentais da "vida ativa", sem as quais não há sobrevivência.
O labor consiste na atividade biológica do corpo, produção e consumo próprio do mundo privado.
O trabalho consiste na atividade com que os homens transformam o ambiente natural em artificial. Garante estabilidade diante da instabilidade da natureza.
A ação consiste na atividade em relação a outros homens; efetivamente, é a experiência política. Especificamente humana, a ação tem como condição a pluralidade de atos e palavras.
Diretamente, cada uma dessas atividades é associada a outros elementos: o Labor ao Eu, o Trabalho ao Mundo e a Ação ao Outro.
Essas três atividades estão intimamente ligadas ao nascimento e à morte, à natalidade e à mortalidade. O labor não apenas assegura a vida do indivíduo, mas o perpetua a espécie. Com o trabalho, a vida pode durar mais, pois os benefícios e o conforto gerados criam um mundo mais adaptado para a vida humana. Por mais que a vida seja efêmera, o trabalho permite maior permanência desta mesma vida. Pela ação, fundada na memória e na linguagem, criam-se a história e o encontro político entre os seres humanos.
A ideia de natalidade ou nascimento é muito importante no pensamento de Hannah Arendt. Cada bebê traz a certeza de um mundo novo, uma nova maneira de agir. Cada nascimento é uma nova possibilidade para o mundo.
A condição humana consiste na afirmação de que homens e mulheres são seres condicionados, porque tudo aquilo com o que entram em contato torna-se uma condição para a sua existência, tanto em si mesmos quanto no mundo e com os outros. Por isso, a condição humana não deve ser confundida com a natureza humana. São categorias totalmente diferentes. A condição humana se refere ao condicionamento dos homens para a manutenção de sua existência, em face de si mesma, do mundo e dos outros. Já a natureza humana seria a essência do homem, impossível de ser alcançada pelo próprio homem.
A vitória do Labor
Para Hannah Arendt, o homem moderno experimenta o problema de ter a dimensão do labor como a mais importante. A relação com os outros e com o mundo acaba substituída pela imediata satisfação das necessidades básicas. A vida, quando privilegia o labor, os prazeres biológicos, comer, dormir, beber, ter relações sexuais, trabalhar, apenas com o objetivo de sobrevivência, torna-se tão básica quanto estas necessidades.
Quando tratamos o mundo como uma forma de alcançar nossos objetivos imediatos, o que chamamos de trabalho deixa de ser transformação para ser labor; ele vira repetição sem fim, na desgastante rotina dos trabalhadores: alienação.
O agir também se reduz ao labor, na me-dida em que nossa relação com os outros não é nem de gratuidade nem de busca política, como o desenvolvimento humano de todos. Os outros são meros objetos, por meio dos quais nossas satisfações são realizadas, e a política deve ser orientada para o labor, para o básico, e nada mais.
Segundo Hannah Arendt, a tarefa da educação é introduzir os novos num mundo que é mais velho. As crianças, que ainda não assumem responsabilidade pelo mundo, precisam apropriar-se dos saberes para que, futuramente, possam agir no mundo. Quando isto não ocorre, a escola não é espaço de agir em busca de uma comunidade mais sábia.
E o que dizer da família, das associações, dos amigos, dos colegas, das festas, dos encontros, das artes? Cada um desses espaços coletivos deveria abarcar o agir em função da felicidade de todos. Mas o agir assim caracterizado não é predominante e sofre limitação dos objetivos que cercam o labor.
Agora, você pode indicar a leitura do seguinte texto. Como você sabe, o texto é fundamental para o aprofundamento no que diz respeito à leitura filosófica.
"Se compararmos o mundo moderno com o mundo do passado, veremos que a perda da experiência humana acarretada por esta marcha de acontecimentos é extraordinariamente marcante. Não foi apenas, e nem sequer basicamente, a contemplação que se tornou experiência inteiramente destituída de significado. O próprio pensamento, ao tornar-se mera 'previsão de consequências', passou a ser função do cérebro, com o resultado de que se descobriu que os instrumentos eletrônicos exercem essa função muitíssimo melhor do que nós. A ação logo passou a ser, e ainda é concebida em termos de fazer e de fabricar, exceto que o fazer, dada a sua mundanidade e inerente indiferença à vida, é agora visto como apenas outra forma de labor, como função mais complicada, mas não mais misteriosa, do processo vital.
No entretempo, demonstramos ser suficientemente engenhosos para descobrir meios de atenuar as fadigas e penas da vida, ao ponto em que a eliminação do labor do âmbito das atividades humanas já não pode ser considerada utópica. Pois, mesmo agora, 'labor' é uma palavra muito elevada, muito ambiciosa para o que estamos fazendo ou pensamos que estamos fazendo no mundo em que passamos a viver.
O último estágio de uma sociedade de operários, que é a sociedade de detentores de empregos, requer de seus membros um funcionamento puramente automático, como se a vida individual realmente houvesse sido afogada no processo vital da espécie, e a única decisão ativa exigida do indivíduo fosse deixar-se levar, por assim dizer, abandonar a sua individualidade, as dores e as penas de viver ainda sentidas individualmente, e aquiescer num tipo funcional de conduta entorpecida e 'tranquilizada'.
O problema das modernas teorias do behaviorismo não é que estejam erradas, mas sim que podem vir a tornar-se verdadeiras, que realmente constituem as melhores conceituações possíveis de certas tendências óbvias da sociedade moderna. É perfeitamente concebível que a era moderna - que teve início com um surto tão promissor e tão sem precedentes de atividade humana - venha a terminar na passividade mais mortal e estéril que a História jamais conheceu."ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução Roberto Raposo. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. p. 335.
Quais as limitações que o labor oferece para o agir, de acordo com o pensamento de Hannah Arendt? O labor na sociedade moderna apresenta limites ao agir quando, em nossa relação com o outro, nós nos comportamos como se ele fosse um objeto para nos servir.
Qual o principal ensinamento presente na contribuição de Hannah Arendt sobre a condição humana? As releituras sempre permitem a identificação dos ensinamentos, mas uma ideia é fundamental: nem todas as práticas ou ações humanas são voltadas para o que a autora chama de agir, que é o processo de construção da felicidade de todos.
Dialogar - A banalidade do mal
O que vem a ser o mal?
O mal sempre foi uma reflexão importante para a filosofia. Mas como entendê-lo tomando-se por base o pensamento reflexivo e critico? A pergunta de Hannah Arendt orbita em torno dessa formulação. Como é possível que no século XX, os homens convivam com um mal como o nazismo, por exemplo? Pensando nos campos de extermínio nazistas, que mataram milhões de pessoas por motivos banais, entender que foram tão poucos os que a eles se opuseram?
Os nazistas associavam sinais aos prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial. Os prisioneiros eram escravizados, torturados e assassinados por não serem, conforme estabeleciam as normas nazistas - arianos, heterossexuais, racionais, racistas e, em suma, nazistas. Conforme seu nascimento, sua religião, orientação sexual e postura política, o indivíduo era violentamente arrancado de sua casa, sem que seus amigos ou vizinhos se opusessem.
Analise o cartaz que traz os símbolos nazistas para identificação dos prisioneiros dos campos de concentração.
Os símbolos eram usados nos campos de extermínio nazistas para marcar os prisioneiros e indicar o tipo de violência a eles destinada. Chamar Auschwitz ou Treblinka de campos de concentração acaba escondendo sua mórbida finalidade que consistia em exterminar pessoas, e não em reuní-las em uma comunidade.
Esses símbolos, em sua maioria, marcavam pessoas comuns, presas e condenadas sem julgamento justo. Embora não seja difícil desaprovar uma forma de "justiça" que condena pessoas à morte por motivos religiosos, étnicos, por orientação sexual e outras razões igualmente injustificáveis. Hannah Arendt foi além, mostrando que esse mal não estava apenas nos soldados assassinos ou em Hitler, mas em todos os que não usavam, para combatê-lo, sua faculdade mais sublime, que é o pensamento. A banalização do mal está, justamente, no fato de que as pessoas são apenas supérfluas e não criticas, fingindo que aquilo não lhes diz respeito, pensando somente em si.
Eichmann, durante seu julgamento, ao fim do qual foi condenado à morte por crimes contra a humanidade.
Ao contrário de muitos que viam em Eichmann a personificação do mal, Arendt viu nele uma figura banal. Para ela, são as pessoas banais que se omitem ou fazem as piores atrocidades. O mal não é sedutor nem monstruoso, como a mitologia pinta, mas banal, comum, ordinário. Eichmann não era um pivô, uma parte fundamental, mas apenas uma peça na engrenagem nazista, que poderia ser muito bem ser substituída por outra.
Por ser peça de uma engrenagem, Eichmann apenas viveu a atividade do labor. Procurou apenas sobreviver, sem refletir sobre o modo como vivia. Sem aprofundar sua sobrevivência, apenas executou ordens, obedeceu e lucrou com isso, enquanto pôde. Mas suas ordens faziam parte de um sistema de destruição: matou crianças, mães, pais, jovens, idosos, sem questionar se aquilo, realmente, era ou não um mal. E, se o fez, não assumiu outras dimensões da vida ativa, como o trabalho e a ação; trabalho, como construção de um mundo, e ação, como o que permite que esse mundo seja melhor.
Banalidade do mal na democracia
Eichmann matou e deixou morrer por "obedecer a ordens". Durante o nazismo, o povo alemão matou e deixou morrer "por não saber o que acontecia". Os judeus foram mortos, mas também deixaram morrer, porque muitos não se revoltaram, não reagiram. Enfim, Hannah Arendt aponta para uma dimensão terrível do mal, terrível porque ele, não está apenas nos grandes assassinos da história, nos vilões, mas em todas as pessoas que não se comprometem com a vida, em todas as pessoas que matam ou deixam morrer.
Ainda segunda essa ótica, como encarar as pessoas que votam em políticos corruptos por causa da propaganda, ignorando os fundamentos críticos da vida política (ação)? Ora, a corrupção começa no instante em que as pessoas não se importam com a política. Cada indivíduo que não procura entender a política, escondendo-se atrás de desculpas, é culpado pela corrupção. Como a corrupção mata? Com a diminuição do número de hospitais, centros de alimentação, casas de acolhida para adolescentes e crianças; com escolas mal aparelhadas, professores mal pagos, empresas que adulteram remédios e alimentos; com o aumento da falta de segurança nas ruas do número de policiais mal remunerados e correndo risco de morrer; com cadeias superlotadas que não recuperam ninguém... Enfim, se alguém morre por algum dos efeitos do desvio de verbas, o eleitor também é responsável por essa morte.
Para quem banaliza o mal, é fácil culpar apenas um ou outro político. Mas o que se deve pensar é como cada um age. Muitos políticos envolvidos em sucessivos escândalos continuam a ganhar eleições - eis uma banalidade do mal: votar sem analisar e desconfiar, dar o voto a gente suspeita.
O que significa a ideia de que o labor venceu o agir e o trabalho. O homem e seus atos passam a ser entendidos como alguma coisa automática, “como se a vida individual realmente houvesse sido afogada no processo vital da espécie”. No limite, a condição humana é confundida com a natureza humana.
O que significa a expressão "banalidade do mal”. A “banalidade do mal” é uma expressão associada à crítica de Hannah Arendt à ausência de reflexão que leva à reprodução de ações violentas. Podem-se utilizar o exemplo dos nazistas e, também,os exemplos da sociedade atual.
Releia este trecho de Hannah Arendt:
"[...] O último estagio de uma sociedade de operários, que é a sociedade de detentores de empregos, requer de seus membros um funcionamento puramente automático, como se a vida individual realmente houvesse sido afogada no processo vital da espécie, e a única decisão ativa exigida do indivíduo fosse deixar-se levar, por assim dizer, abandonar a sua individualidade, as dores e as penas de viver ainda sentidas individualmente, e aquiescer (consentir, ceder) num tipo funcional de conduta entorpecida e tranquilizada” (ARENDT,2009).
Este trecho trata da:
a) Vida ativa;
b) Vitória do labor;
c) Atividade do trabalho;
d) Atividade do agir;
e) Banalidade do mal.
Assinale as alternativas corretas a respeito do pensamento de Hannah Arendt:
a) O labor é a atividade humana referente às necessidades biológicas.
b) O trabalho é a atividade humana referente à construção do mundo humano, que não é somente trabalhar para ganhar dinheiro, e sim construir melhorias, como a arte.
c) A ação diz respeito à relação entre as pessoas; é a dimensão política por excelência.
d) O labor é a parte fundamental da vida humana e por isso Arendt vê com bons olhos a sua vitória sobre as outras dimensões da vida ativa.
e) A banalidade do mal significa a ação de pessoas que agem de forma monstruosa.
Releia com atenção o seguinte trecho de Hannah Arendt: "É perfeitamente concebível que a era moderna, que teve início com um surto tão promissor e tão sem precedentes de atividade humana, venha a terminar na passividade mais mortal e estéril que a História jamais conheceu."
Para a autora, essa "passividade mais mortal'' significa que:
a) O homem moderno está centrado apenas nas necessidades básicas, ou seja, na vitória do labor;
b) O homem não reage contra as adversidades;
c) Por causa da poluição as pessoas estão ficando estéreis;
d) Ninguém procura se aprofundar sobre a existência, privilegiando a prática mais imediata e se esquecendo do trabalho de transformar o mundo e da ação política;
e) A história moderna inicia com um surto e acaba calma e tranquila.
Faça um resumo sobre os conceitos de condição humana e banalidade do mal.
Com base em uma questão da sociedade brasileira atual, escrevam um texto sobre a banalidade do mal, (exemplos: a violência contra os mendigos, um episódio de racismo e/ou preconceito, o desrespeito aos indígenas, o trabalho infantil, a morte de bebes em maternidades, a adulteração de remédios ou alimentos)
Prof. Manoelito
Boas Férias
3ª SÉRIE - CONTEÚDOS PARA AVALIAÇÃO (2) 4º - BIMESTRE
EE BATISTA RENZI
DISCIPLINA: FILOSOFIA
ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS
ETAPA DA EDUCAÇÃO BÁSICA: ENSINO MÉDIO
3ª SÉRIE – VOLUME 4 - 4º BIMESTRE
TEMAS E CONTEÚDOS: SER FELIZ É PRECISO E FELICIDADE E COMPROMISSO: CONSIGO E COM O OUTRO
SER FELIZ É PRECISO
Neste texto, vamos trabalhar a Filosofia em relação a algumas questões próprias do cotidiano atual dos jovens brasileiros e que cercam o tema felicidade. Tais questões referem-se às representações que associamos à ideia de felicidade, como o prazer imediato, o consumo, como levar vantagens em diferentes situações competitivas, ter sucesso e reconhecimento social, e ainda como viver a vida densa de glamour que é propagandeada em anúncios nos meios de comunicação de forma geral. Diante de tudo isso, uma pergunta fundamental é: "Quais os fetiches associados à ideia de felicidade em nosso cotidiano cultural?"
Competências e habilidades a serem desenvolvidas: relacionar informações, representadas de formas variadas, com conhecimentos disponíveis em diferentes situações, para construir argumentação consistente (Enem); problematizar o tema felicidade, tendo em vista questões da sociedade brasileira contemporânea, e sensibilizar-se quanto à relevância de refletir de forma sistemática e rigorosa sobre tais questões; ler, compreender e interpretar textos teóricos e filosóficos; expressar-se por escrito e oralmente de forma sistemática; elaborar hipóteses e questões sobre leituras e debates realizados.
Abordaremos também a relação entre o tema felicidade e as questões destacadas neste texto. Então, propomos a leitura de uma poesia bastante conhecida de Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada.
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
Após a leitura do poema Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira, responda em seu caderno: Quais imagens associadas à palavra felicidade estão presentes na poesia?
Leitura e Análise de Texto: Entraves à felicidade
“A humanidade pode contar com diversos lugares imaginários como Pasárgada, nos quais a felicidade plena e eterna existe.
Além de Manuel Bandeira, Luís de Camões, no poema épico Os lusíadas, descreve a Ilha dos Amores, lugar da satisfação do desejo e da utopia.
A ideia de um paraíso ou de um lugar especial, no qual realizamos todos os nossos desejos, faz parte do imaginário humano, justamente porque em nosso cotidiano, em nossa experiência de vida, encontramos diversos entraves para a realização dos nossos desejos.
Além desse lugar imaginário, integram nossa cultura as fantasias em torno do que faríamos se ganhássemos na loteria, por exemplo.
Imaginar um lugar de felicidade eterna ou uma condição material capaz de comprar tudo o que necessitamos e desejamos são fantasias diretamente relacionadas ao fato de que nossos desejos sofrem limitações ou entraves que geram frustrações. Faz parte de um bom processo de maturidade aprender a lidar com essas frustrações.
A reflexão filosófica pode ajudar na identificação dos limites ou entraves aos nossos desejos e na compreensão sobre o modo como lidamos com eles. A felicidade depende mais da maneira como nos relacionamos com esses limites e entraves do que, propriamente, da satisfação dos nossos desejos.
Pode-se afirmar, sem medo de errar, que a história da Filosofia é marcada pela preocupação dos filósofos a respeito das condições dos seres humanos para o enfrentamento de seus sofrimentos, de suas frustrações, de suas inquietações e para a compreensão dos próprios limites.
Grande parte da produção em Filosofia e em Psicologia ajuda os seres humanos a compreender que nem sempre desejo e necessidade andam juntos. No mundo contemporâneo, sob o efeito da publicidade e de todo o apelo da sociedade de consumo, somos cada vez mais influenciados a desejar o que não necessitamos ou a acreditar que necessitamos o que nos ensinam a desejar.
Filósofos contemporâneos como Jean Baudrillard (1929-2007), Walter Benjamin (1892-1940), Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Jean-Paul Sartre (1905-1980) produziram reflexões sobre temas como consumo, prazer, convívio social e limites à felicidade humana. São autores que problematizam o tema felicidade no âmbito da Filosofia”.
Após a leitura do texto "Entraves à felicidade", respondam às seguintes questões:
1. No plano biológico, quais são os desejos, as necessidades e os entraves relativos ao nosso corpo?
2. No plano psicológico/emocional, quais são os desejos, as necessidades e os entraves?
3. No plano social, quais são os desejos, as necessidades e os entraves?
Após responder as questões, façam uma síntese do exercício atentando para a importância de compreender que muitos de nossos desejos são primordiais, relativos à nossa condição biológica ou psicológica, mas muitos deles são associados aos valores de cada momento histórico e, se em um passado não muito distante éramos capazes de viver sem telefones celulares, atualmente esse objeto é tido por uma grande maioria das pessoas como de extrema necessidade, além de se constituir num sonho de consumo de muita gente. De maneira geral, na nossa sociedade, associamos a felicidade à prosperidade econômica como crescimento constante de consumo de bens ou como adoção de um padrão de vida e um comportamento que nos conduziria para a felicidade.
Mas será que a nossa felicidade pode ser resumida a um consumo sempre crescente, à adoção de uma imagem ou a um padrão de comportamento idealizado? Para refletir sobre o assunto, sugerimos a leitura do trecho que segue.
O hedonismo moderno: uma arma trágica de dois gumes
Indubitavelmente, vivemos em uma época na qual a promessa de felicidade [...] estaria no final da trilha de um comportamento que chamaríamos de hedonista. O hedonismo não é invenção moderna. E pode ter tido, ao longo da história, várias versões. [...]
Em termos genéricos, poderíamos dizer que o hedonismo que se nos apresenta hoje em dia propõe extrair da liberdade individual o máximo de prazer disponível, o que seria o equivalente a ser feliz. Emprego o termo disponível para sinalizar a possibilidade de consumo de todas as benesses que o progresso tecnológico nos põe à disposição. Quanto mais pudermos consumir, mais seremos felizes. Essa é a promessa embutida na crença propagada pelos meios de produção. [...]
Essa proposta hedonista se insere dentro de uma arquitetura de "razões", algumas explícitas, outras implícitas. É importante não só assinalá-las, como discutir suas consequências. A primeira delas aponta não apenas que podemos ser felizes, mas que devemos ser felizes. [...]
A segunda "razão" formula, generosamente, em termos explícitos, as trilhas e as atitudes que todas as pessoas devem adotar para chegarem "lá". O que fica implícito (ou oculto) na proposta é a contradição nela embutida: que a decantada liberdade individual na escolha dos prazeres fica tolhida, quando não negada, pelo fato de se imporem às pessoas padrões de consecução de prazer. Exemplos: a mulher feliz é a que...; o homem de sucesso é aquele que...; [...] A obrigação de ser feliz é também condicionada à posse de um corpo cujas características estéticas estão determinadas, a priori, por padrões preestabelecidos. Quem não se enquadrar nesse padrão, trate de alcançá-lo, senão... [...] Estamos aqui em plena vigência de outra contradição: os mesmos modelos ofertados para se alcançar uma felicidade padronizada, idealizada, acabam arrastando a pessoa para frustração, culpa e sensação de exclusão do paraíso. [...]
1. E possível a felicidade sem a aquisição de determinados padrões de consumo e de comportamento?
2. De que forma somos levados a idealizar e adotar padrões de consumo, de vida e comportamento?
No próximo texto, veremos outro tema fundamental que se desdobra da reflexão sobre felicidade: a morte. Como nos relacionamos com essa que é a única certeza da existência de todos os seres vivos? Para tanto, inicialmente leiam o texto Morte, de Aguinaldo Pavão, que é professor de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina.
Morte
Parece-me que o dia 2 de novembro reforça a necessidade em mini de pensar sobre a morte. Eu fico muito triste quando penso na minha morte. Por outro lado, é desconfortável a ideia de que poderia não morrer, de que poderia ser eterno. Que graça teria a vida se nós não morrêssemos? A ânsia de viver, de gozar a vida, parece só ter sentido porque sabemos que vamos morrer. Sei que esta é uma filosofia meio barata (contudo, não esqueçamos que, no fundo, a filosofia é apenas uma sofisticação do senso comum). De fato, não precisamos de profundidade para fazer essa reflexão desconcertante. A morte é desesperadora. A morte é o fim das leituras, o fim das viagens, o fim do amor, o fim do sexo, o fim da música, o fim de tudo. Todavia, é ótimo que haja morte. Nós temos de assumir nossa mortalidade. Quanto mais assumirmos isso, mais poderemos degustar a vida. Precisamos lembrar de Aquiles, o herói grego: os deuses é que devem invejar os mortais, pois é a nossa condição de mortais que permite sentir a importância de cada momento.
Mas talvez haja vida após a morte. Contudo, se me fosse dada a oportunidade, na hipótese de haver vida após a morte, eu gostaria de dizer que renuncio à eternidade. Eu devolveria o bilhete. A eternidade me cansa. Seria um tédio insuportável viver para sempre. Só a ideia já me cansa. E eu quero ter um corpo, e parece difícil a ideia de que meu corpo também sobreviverá. Ele ficará imperecível, insuscetível à ação do tempo? Se eu não quero aqui a eternidade, lá eu também não quero. Porque se eu não a desejo aqui, não vejo razões para mudar de ideia lá.
Se eu fosse um outro eu, talvez a quisesse, mas aí já não seria mais eu, e não sendo mais eu, não saberia como esse outro eu agiria, como ele sentiria as coisas. Se houvesse vida após a morte, eu seria condenado à eternidade? Ao que parece sim, embora isso não seja necessário. Mas se fosse eterno, isto é, se minha vida pós-morte implicasse uma duração infinita no tempo, eu mais perderia do que ganha-ria. Ora, eu não escolho nascer, mas posso escolher me matar. Se fosse eterno não teria essa liberdade.
PAVÃO, Aguinaldo. Morte. Disponível em: .Acesso em: 2 maio 2013.
FELICIDADE E COMPROMISSO: CONSIGO E COM O OUTRO
Leitura e Análise de Texto
O bem e o mal dependem, sobretudo, da ideia que fazemos deles
“Os homens, diz uma antiga sentença grega, são atormentados pelas opiniões que têm sobre as coisas, não pelas próprias coisas. Seria de fato um importante passo, para o alívio de nossa miserável condição humana, se pudéssemos estabelecer a verdade desta opinião em todas as situações. Pois se é apenas o nosso julgamento que permite que os males nos adentrem, parece que poderíamos desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se rendem à nossa vontade, por que não tratá-las como dono ou acomodá-las em nosso favor?
Se o que chamamos de “mal” ou de “tormento” não é nem mal nem tormento em si, mas é a nossa imaginação que lhe atribui este caráter, temos o poder de mudá-lo. E já que temos a escolha, é completamente tolo atermo-nos à opção que nos é mais incômoda e darmos às doenças, à indigência e ao desprezo um gosto amargo e mau, quando podemos lhes dar um gosto bom e, o destino nos fornecendo simplesmente a matéria, nos cabe lhe dar forma.”
MONTAIGNE, Michel de. Les Essais, Livre I. Chapitre XL. Tradução Renée Barata Zicman. Disponível em francês em:
. Acesso em: 23 abr. 2010.
1. Qual a diferença entre aceitar uma frustração, uma perda, sem se deixar derrotar psicologicamente por ela, e o conformismo, ou seja, a desistência de lutar pelo que se quer? A frustração produzida pela morte de uma pessoa querida não pode ser incluída nesse questionamento. Trata-se de uma situação na qual a sabedoria de aceitação de nossa natureza mortal pode ajudar no enfrentamento desse tipo de perda em especial.
2. Qual a diferença entre não ser escravo do desejo e lutar pelo que se quer?
3. Qual a diferença entre não se ver como centro do mundo e a baixa autoestima?
4. Qual a diferença entre respeitar as próprias emoções e deixar-se levar por elas?
5. O que as frases a seguir sugerem em relação à felicidade?
a) Na vida, como na selva, vale a lei do mais forte. Os fracos não sobrevivem.
b) O mundo é dos espertos.
c) O importante é levar vantagem em tudo.
6. Analise e comente a letra da música a seguir, associando-a ao tema felicidade.
Cada um por si
Renato Martins
Todo mundo sabe: pra nascer tem que ter
[sorte
E quem tem sorte escapa até mesmo da[morte
É, todo mundo sabe, de um ou de outro
[jeito,
O cada um por si é o que vai ser
Todo mundo ouviu e viu pela tevê
O golpe que me deram
Eu dei outro em você
E assim as coisas vão
Infelizmente pra nós dois
O cada um por si é que é a lei
Eu sei
Fraternidade só existe é em mensagens de
[cartão-postal
Eu não queria que o mundo fosse assim
Infelizmente não depende só de mim
Parabéns pra mim, a vitória está comigo
O sucesso vem pr’aquele que é seu próprio
[e melhor amigo
E a humanidade onde entra nisso?
O cada um por si é que é a lei
E não fui eu que quis assim
Eu tentei ser diferente
Mas quanto mais tentava
Menos era respeitado por toda a gente
E pensei
Se o cada um por si é que é legal
É o que vai ser
Eu sei
Fraternidade só existe é em mensagens de
[cartão-postal
Eu não queria que o mundo fosse assim
Infelizmente não depende só de mim
Fraternidade só existe é em mensagens de
[cartão-postal
Eu não queria que o mundo fosse assim
Infelizmente não depende só de mim
Cada um por si é o que vai ser
Cada um por si é que é a lei
Cada um por si é o que vai ser
Cada um por si é que é a lei
© Deck Produções Artísticas Ltda.
Leitura e Análise de Texto
A dimensão social da felicidade
Ao contrário do que muitos pensam, a realização da felicidade não depende apenas da vontade e da atitude de cada pessoa, por mais esforçada e determinada que ela seja. Isso porque ninguém é autossuficiente para satisfazer suas necessidades subjetivas e objetivas.
Como constatamos em anteriormente, o homem é um animal político, isto é, um ser que, pela sua própria natureza, só existe em sociedade na convivência com seus semelhantes, havendo entre todos uma relação de dependência recíproca no atendimento a essas necessidades.
Do ponto de vista objetivo, por exemplo, precisamos de uma infinidade de coisas que são fruto do trabalho de outras pessoas: alimentos, roupas, calçados, diversos utensílios do nosso dia a dia, livros, cadernos, lápis, canetas, transporte, atendimento médico, odontológico e psicológico, segurança, espaços para lazer e prática esportiva etc. A lista não teria fim. Na realidade, como diz o professor Dalmo de Abreu Dallari, a vida em sociedade é uma constante “troca de bens e serviços”1, de modo que cada pessoa depende do trabalho das demais. Ora, se todas essas coisas são necessárias à felicidade, então ela depende da ação coletiva de um número imensurável de pessoas que produzem esses bens e prestam esses serviços.
O mesmo vale para as necessidades subjetivas. Todos precisamos de amor, carinho, respeito, afeição, consideração, atenção, ternura, cordialidade, hospitalidade, cuidado, prazer, conhecimento, liberdade, espaço para pensar, criar, sentir, crer, enfim, de uma infinidade de elementos relacionados à nossa vida interior, os quais somos incapazes de obter sozinhos. Também aqui precisamos da colaboração das pessoas a nossa volta.
A felicidade, por conseguinte, tanto no seu aspecto objetivo quanto no subjetivo, é sempre produto de uma ação coletiva dos membros de uma dada sociedade. Em outras palavras, podemos dizer que a felicidade é socialmente produzida e, portanto, tem um caráter social. Afinal, como diz a letra de uma conhecida canção, “é impossível ser feliz sozinho”.
Por essa razão, não faz sentido buscá-la no individualismo ou no egoísmo, isto é, agindo de acordo com nossos interesses particulares, procurando tirar vantagem das diversas situações, sem nos preocuparmos com as consequências de nossos atos.
Ocorre, porém, que egoísmo e individualismo são justamente os valores mais estimula dos por nossa sociedade quando o assunto é a busca da felicidade. Aprendemos desde muito cedo que o sucesso ou o fracasso na escola, na profissão, na vida dependem de nosso esforço individual; que no mundo prevalecem as leis do “cada um pra si” ou do “salve-se quem puder”; que precisamos nos preparar para enfrentar a grande competitividade do vestibular e, depois dele, do mercado de trabalho; que, uma vez empregados, devemos disputar com nossos colegas pela ascensão na carreira, por status e poder; que ao nosso lado há não um amigo ou um companheiro, mas um adversário, um concorrente, alguém que para nós representa uma ameaça. Se ele desistir, tanto melhor, pois nossas chances de sucesso serão maiores.
Aqui, aliás, encontramos outro sentido que nos possibilita dizer que a felicidade tem um caráter social: em grande parte, é a sociedade que produz dela a imagem que assimilamos e que transformamos em objeto de nossos maiores anseios, muitas vezes sem questionar.
Numa sociedade em que as pessoas são mais valorizadas e reconhecidas pelo que possuem do que pelo que são, a felicidade tende a ser identificada com a posse de bens materiais e de dinheiro, que é o meio pelo qual se adquirem esses bens. Por esse raciocínio, quanto mais posses tiver uma pessoa, mais feliz ela será. Quanto menos posses, mais infeliz. Assim, esse passa a ser o ideal dominante de felicidade que vai mobilizar o desejo e os sonhos da maioria das pessoas. Ocorre que, em se tratando de uma sociedade com profundas desigualdades de classe e na qual o ter mais de alguns se viabiliza à custa do ter menos ou do não ter dos demais, esse ideal de felicidade se revela, na prática, inatingível para a grande maioria das pessoas (os pobres) e privilégio de poucos (dos ricos).
Por outro lado, numa sociedade organizada de maneira diferente, na qual as pessoas fossem mais valorizadas pelo que são do que pelo que possuem, certamente prevaleceria outro ideal de felicidade.
A construção de um novo modelo de sociedade, que proporcione condições mais igualitárias de acesso à felicidade, é, sem dúvida, responsabilidade de todos nós. Mas, enquanto isso não se viabiliza plenamente, talvez possamos nos empenhar em mudar desde já alguns valores, rejeitando a imposição do individualismo e do egoísmo e procurando construir relações mais ancoradas na amizade, na solidariedade e na cooperação, antecipando aqui e agora, na medida do possível, a utopia de uma sociedade feliz.
1. O que significa dizer que ninguém é capaz de satisfazer suas necessidades subjetivas e objetivas?
2. Em que sentido se pode afirmar que a felicidade tem um caráter social?
3. Em que se baseia a afirmação de que não tem lógica buscar a felicidade no individualismo e no egoísmo?
4. Na sociedade em que vivemos, é possível superar a influência do egoísmo e do individualismo? Como?
5.
Leitura e Análise de Texto
A dimensão política da felicidade
Vimos que, pela própria natureza política do ser humano, a felicidade possui um caráter social, no sentido de que as condições objetivas e subjetivas necessárias à sua realização são coletivamente produzidas.
Por sua vez, a existência ou não dessas condições, bem como o número de pessoas que terão acesso a elas, depende, em grande parte, das políticas governamentais implementadas nas diversas áreas da administração pública. Temos, por exemplo, políticas para a saúde, a educação, a habitação, o transporte, a segurança, o emprego, os direitos humanos, as mulheres, os negros, os povos indígenas, os portadores de necessidades especiais, o meio ambiente, o emprego e muitas outras.
Ora, se a presença de certas condições necessárias à felicidade resulta de políticas governamentais, então podemos concluir que a felicidade ou a infelicidade da população depende, ao menos em parte, da ação dos governantes.
Ocorre que, numa democracia, os que governam nas diversas instâncias (municipal, estadual e federal) são eleitos pelo voto direto dos cidadãos. Isso significa que, em alguma medida, todos os que votam (ou deixam de votar) são corresponsáveis por essas políticas e, por conseguinte, também pela realização ou não realização da felicidade da população. Eis a dimensão política, em sentido mais estrito, da felicidade.
Daí a importância da participação política consciente, sobretudo em relação ao voto. Mais do que um direito, essa participação é também um dever de cada cidadão, pois dela derivam consequências que afetam a vida de toda a sociedade.
No entanto, muitas pessoas ainda se recusam a participar politicamente, dizendo que não gostam ou não entendem de política e que preferem cuidar da própria vida, dos assuntos particulares. Muitos se negam a discutir questões políticas, temerosos das possíveis consequências do confronto de ideias. Justificam sua indiferença com o famoso ditado:
“Política, religião e futebol não se discutem”. Outros, ainda, alegam que política é coisa suja, que todo político é corrupto e que, por isso, preferem permanecer distantes para não se contaminarem.
Quem adota essa atitude está, na verdade, expressando uma consciência ingênua e alienada em relação à política. Isso porque, na prática, a abstenção política é impossível.
Pelo simples fato de fazer parte de uma sociedade, sofremos as influências do contexto em que vivemos, como também exercemos influência sobre ele, mesmo sem perceber.
Daí por que, como diz Dalmo de Abreu Dallari, não se podem separar radicalmente os interesses particulares dos interesses públicos. Posso, por exemplo, desistir de votar numa determinada eleição, por motivos particulares, mas essa minha atitude, somada às dos demais eleitores, não deixará de repercutir proporcionalmente no resultado eleitoral, assim como este não deixará de repercutir em minha vida privada. Além disso, abdicar da política é uma forma de apoiar as ações governamentais, o que também constitui uma atitude política que nada tem de neutralidade. Na verdade, o desinteresse do povo pela política só interessa a certos governantes, que o querem distante das decisões, para que possam favorecer os próprios interesses. Engana-se redondamente, portanto, quem acredita que pode permanecer alheio à política.
A rigor, a participação política não é necessariamente algo que se faça por prazer (embora isso seja perfeitamente possível), mas por necessidade, pois, querendo ou não, participamos de um jeito ou de outro. Aliás, é bastante provável que, para muitos, ela não seja mesmo prazerosa. Mas aqui talvez valha o ensinamento de Epicuro de que, às vezes, é preferível aceitar certos sofrimentos (como o fazer algo de que não se gosta), se este for o caminho para se obter um prazer maior (por exemplo, condições sociais mais favoráveis à felicidade de todos). Do contrário, nossa omissão pode resultar em grande infelicidade, inclusive para nós mesmos.
Há várias formas de participação política. Votar conscientemente é apenas uma delas. Na verdade, é o mínimo que se pode exigir de um cidadão numa democracia. E, para que o voto seja de fato consciente, é preciso que o eleitor esteja bem informado sobre as atribuições dos cargos em disputa, as características dos candidatos e partidos, os principais problemas que deverão ser enfrentados pelos eleitos e as possíveis soluções para eles. Além disso, o eleitor consciente deve agir com liberdade e responsabilidade social, não aceitando jamais vender ou trocar o seu voto nem oferecê-lo em retribuição a algum favor ou para agradar alguém.
Além do voto, há outras formas de participação política: a individual e a coletiva. Do ponto de vista individual, há uma enorme gama de ações que cada um pode praticar. Por exemplo: dialogar em casa, na escola, no trabalho, ou em qualquer outro lugar sobre os problemas da cidade, do Estado ou do país, buscando adquirir e também despertar nos outros uma consciência mais crítica sobre tais problemas; escrever em jornais, revistas e outros meios de comunicação, denunciando situações de injustiça; enviar e-mails para as autoridades cobrando providências e seus compromissos de campanha; manter-se informado sobre a realidade do país, pela leitura de jornais e revistas; defender e pôr em prática no dia a dia valores como a solidariedade, o respeito e a cordialidade, como forma de combater o individualismo e o egoísmo reinantes; entre outras.
Por outro lado, a participação coletiva do indivíduo ocorre por meio do envolvimento em partidos políticos, associações, organizações não governamentais, sindicatos, grêmios estudantis, movimentos, enfim, em qualquer agrupamento que tenha objetivos bem definidos. Vale lembrar que o grupo, sobretudo quando bem organizado, é sempre mais forte que o indivíduo.
Muitas coisas exteriores a nós, que influem em nossa felicidade ou infelicidade, dependem direta ou indiretamente de nós e da forma como participamos politicamente. Nesse sentido, podemos dizer que a felicidade tem também uma natureza política que não pode ser desconsiderada. É evidente que as diversas formas de participação são muito facilitadas num regime democrático. Daí também a importância da democracia para a construção da felicidade.
Reflexões sobre política
1. O que você entende por política?
2. Você tem algum tipo de participação política? Por quê? Em caso afirmativo, descreva-a.
3. O que você pensa do ditado: “Política, futebol e religião não se discutem”? Justifique sua resposta.
4. Em que sentido pode-se dizer que o desejo de abstenção política reflete uma consciência ingênua e alienada? Você concorda? Por quê?
5. O que significa a afirmação de que a felicidade tem uma dimensão política? Você concorda? Justifique.
Lembrem-se a leitura é a senha para o acesso ao conhecimento
Prof. Manoelito!!! Sejam felizes!!!
Assinar:
Postagens (Atom)