segunda-feira, 17 de junho de 2013

Alienação moral e o ser-para-outros - Jean Paul Sartre

Muitas pessoas sonham ou têm pesadelos onde aparecem sem roupa na rua, à frente de estranhos, Ficam aflitas e envergonhadas e só sentem alívio ao despertarem e perceberem que tudo não passou de um sonho. A partir disso, podemos pensar, filosoficamente, por que sentimos vergonha? Por que um bebê não sente vergonha de estar sem roupa?
Para Sartre, a vergonha vem do fato de que nós somos o que os outros nos revelam. Assim, no caso da vergonha, somos instituídos pela presença julgadora dos outros. Nós reconhecemos nossa existência a partir do significado que o outro nos atribui. Se me sinto envergonhado e acho que o que está acontecendo comigo é algo feio, é o outro que me revela nesse significado. Do mesmo modo, ao estar apaixonado, egoisticamente precisando ser amado, o outro me revela nessa necessidade.
Diferentemente do amor, que quer aprisionar o outro ao nosso lado, o ódio também revela quem somos. O ódio revela minha maldade, meu ser cruel, que despreza a liberdade do outro. Por isso, mesmo quem ri de nós nos institui. Enfim, cada um de nós experimenta a própria existência sob o olhar alheio.
Isso faz com que nossa relação com os outros seja tão íntima que precisamos assumir uma vida ética. Por mais que eu me considere de determinada maneira, sempre haverá quem nos mostra de modo diferente. Podemos até disfarçar, mas o ato de disfarçar já é colocar-se no mundo com base no outro. Por isso, Sartre chegou a dizer que o inferno são os outros. Não há como escapar disso: é preciso ser ético.

Alienação moral
Alienação moral é preocupar-se de maneira distorcida com o outro. Não é ignorá-lo, visto que é impossível, pois ele nos mostra em si como somos, mas traduzi-lo de uma forma que não permita essa revelação. No processo de alienação moral, uma pessoa trata as demais sem reflexão que permita o questiona-mento sobre diferenças, semelhanças, justiça, igualdade; sem pensar a si mesmo.
Sobre isso, Sartre afirmou que não podemos viver com morais alienantes, fora da história. A ética deve ser entendida como ação no mundo, sob o contingenciamento da história - história e ética se confundem. A alienação moral procura fazer com que a ação do passado seja repetida no presente; o que é bom é a cópia do que foi bom, ignorando as transformações que a história de cada um e das sociedades imputa a todos. Não podemos dizer, sem pensar, que o que era errado há 100 anos continuará sendo errado, que não deve haver mudanças.
Tanto quanto o organismo precisa de alimento, água e ar, nós, seres humanos, precisamos de ética. Sua falta pode significar a morte ou uma falsa vida, falsa individualidade e pseudoexistência. Sem ética, sem pensar no outro como revelador de nós mesmos, nós não passamos de pássaros que não têm asas. Sem agir em benefício dos outros, ainda que pensemos, teríamos as asas, mas mesmo assim não voaríamos.
Cabe, portanto, no presente, a preocupação de como devemos agir em relação ao outro. As mudanças de nosso tempo exigem uma reflexão a respeito de nossa convivência ética, com os desafios do mundo atual, para a construção da solidariedade entre os seres humanos.
Cabe a cada um de nós assumirmos a reflexão pura e sermos autênticos na perspectiva da solidariedade. Devemos nos reconciliar conosco e assumir a ação ética no mundo, mesmo que não tenhamos apoio: as atitudes antiéticas dos outros nos revelarão éticos.
Portanto, sermos éticos é assumirmos a responsabilidade com o outro, com aquele que não somos. Com base nisso, teremos a autenticidade da nossa própria vida e não a vileza de uma vida baseada em sistemas não-históricos. Afinal, é o outro que nos revela o que somos.

1 – Segundo Sartre, por que sentimos vergonha?
2 – Por que, Alienação moral é o inferno são os outros?
3 – O que é Alienação moral Segundo Sartre?
4 – Como se dá o processo de alienação moral?
5 – Compare as seguintes frases abaixo e conclua de acordo com o seu entendimento o que o autor quis demonstrar.
a) Tanto quanto o organismo precisa de alimento, água e ar;

b) Nós, seres humanos, precisamos de ética.

Viver para o outro - Emmanuel Levinás


Em geral, quando nos vemos como indivíduos, temos uma certeza: somos nós e o mundo. O "eu" percebe o mundo e os entes do mundo como coisas. Dividimos o mundo em entes importantes para nós e entes que não nos são importantes; entes que amamos e entes que não amamos; entes que fazem parte da nossa vida e entes que ignoramos por completo.
Dessa maneira, categorizamos o mundo e damos sentidos a tudo. Por exemplo, no livro A menina que roubava livros, de Marcus Zusak, a personagem principal guarda alguns livros, mesmo sem saber ler, pois eles significam a presença do irmão e da mãe, isto é, o sentido dos livros não foi atribuído pelo texto, mas pela analogia que a menina fez entre esses objetos e pessoas que amava.

A linguagem como acesso ao outro
A linguagem nos precede, nós recebemos o que somos não por nós mesmos, mas a partir do onde fomos criados. Somos fruto do mundo que nos cerca. Somos parte dele, quer queiramos ou não, justamente porque até a maneira de vermos o mundo está constituída pelas formas de linguagem que aprendemos de outras pessoas, como os nossos pais e professores.
A troca de sentidos é o que nos faz humanos. Ao reconhecer que outras pessoas são capazes de dar sentido, elas deixam de ser apenas coisas e tornam-se o outro, parte do nosso "eu", assim como nós nos tornamos parte deles. No entanto, o outro é para nós um profundo e infinito mistério, e cada pessoa do mundo pode nos levar a lugares jamais pensados.
Por isso, é preciso viver para o outro, pois assim o desenvolvimento do nosso "eu" será cada vez maior. Viver para o outro é a melhor maneira de viver para si, pois os outros são a maior parte de nós mesmos. Os outros são as pessoas de quem gostamos ou de quem não gostamos. Estranhos ou conhecidos. Podemos compreender e sermos compreendidos por todos. Nossa atitude ética, então, é viver para o outro, e cada vez que nos aproximamos dos outros nós nos completamos, nos instituímos. Os outros nos dão mais expressividade, mais linguagem. Portanto, devemos viver por quem nos dá mais, que é a maneira de vivermos por nós mesmos, ou seja, viver para o outro.

1 – Segundo Emmanuel Lévinas, como categorizamos o mundo e damos sentidos a tudo?
2 – Qual a importância da linguagem, segundo Emmanuel Lévinas?
3 – Segundo Emmanuel Lévinas, porque é preciso viver para o outro?




A indústria cultural – Theodoro Adorno e Max Horkheimer

            Quem nós copiamos?
Para Adorno e Horkheimer, após o Iluminismo, o ser humano se esqueceu da razão como busca da verdade, da veracidade das teorias e da ética. Por temer, de certa forma, a verdade, fez-se a opção pelo funcionamento de tudo. Cada vez que perguntamos para que serve ou qual a finalidade de algo, estamos no campo da razão instrumental. Trocamos a busca pela verdade pela busca de objetivos sem crítica.
 A razão instrumental está preocupada com os fins que também caracterizam o sistema de exploração capitalista. Por isso, diante das forças econômicas, os indivíduos acabam reduzidos a zero. Milhões de pessoas são excluídas por categorias de pensamento desenvolvidas a partir do século XIX, como a ideia de que as empresas beneficiam os trabalhadores, mas a maioria deles, ainda hoje, não conseguiu encontrar esses benefícios.
Para que esse sistema histórico-social - que apenas favorece os empregadores - possa continuar intacto, isto é, fortalecido, inventou-se uma maneira muito poderosa de fazer com que as pessoas não usem sua razão crítica para criar sua individualidade, tornando-se verdadeiras cópias de outras pessoas igualmente artificiais.
Assim, a razão instrumental acabou gerando a cultura de massa, que é a industrialização e produção em série de mercadorias culturais, que produzem, por sua vez, individualidades falsas ou pseudoindividualidades.

Leiam o texto a seguir
"Na indústria, o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão. Da improvisação padronizada do jazz até os tipos originais do cinema, que têm de deixar a franja cair sobre os olhos para serem reconhecidos como tais, o que domina é a pseudoindividualidade. O individual reduz-se à capacidade do universal de marcar tão integralmente o contingente que ele possa ser conservado como o mesmo. Assim, por exemplo, o ar de obstinada reserva ou a postura elegante do indivíduo exibido numa cena determinada é algo que se produz em série exatamente como as fechaduras Yale, que só por frações de milímetros se distinguem umas das outras. As particularidades do eu são mercadorias monopolizadas e socialmente condicionadas, que se fazem passar por algo natural. Elas se reduzem ao bigode, ao sotaque francês, à voz grave de mulher de vida livre [...]: são como impressões digitais em cédulas de identidade que, não fosse por elas, seriam rigorosamente iguais e nas quais, a vida e a fisionomia de todos os indivíduos - da estrela do cinema ao encarcerado - se transformam, em face ao poderio do universal. A pseudoindividualidade é um processo para compreender e tirar da tragédia sua virulência: é só porque os indivíduos não são mais indivíduos, mas sim meras encruzilhadas das tendências do universal, que é possível reintegrá-los totalmente na universalidade. A cultura de massas revela assim seu caráter fictício que a forma do indivíduo sempre exibiu na era da burguesia, e seu único erro é vangloriar-se por essa duvidosa harmonia do universal e do particular."
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução Guido António de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 144-5.

No texto da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer apresentam a cultura de massa ou a indústria cultural, que submetem a arte e as manifestações culturais às leis de mercado. A beleza que fazia com que o homem compreendesse a profundidade de sua existência há dois séculos revelou-se efêmera e superficial, esvaindo-se com a moda. Em resumo, mostram os filósofos, que o mais importante não é construir a si mesmo, mas copiar quem está na propaganda.

Mas onde se encontra a cultura de massa? No rádio e na televisão, nos jornais e revistas, no cinema, nos shows e na propaganda, em geral, isto é, nos meios de comunicação de massa.
Qual a estratégia dessas empresas? Convencer as pessoas de que elas são livres para escolher o que é melhor, mas insistindo que o melhor é sempre o seu próprio produto. Além disso, tentam transformar tudo em entretenimento, por exemplo:
- Todas as rádios tocam as melhores músicas. O ritmo da juventude, o som do amor. Há aquelas que afirmam tocar as melhores músicas da semana, mas ocultam quanto se pagou para que estas fossem consideradas as melhores.
- Os jornais e revistas sempre afirmam seu compromisso com a verdade. Como sabemos, a verdade jornalística vende, principalmente quando se faz uma "grande denúncia". Passado o impacto - e esgotadas as edições - a "grande denúncia" acaba esquecida.
- No cinema e nas telenovelas, tudo tem um final quase sempre previsível, os melhores efeitos especiais ajudam os pseudoartistas, que apresentam sempre corpos masculinos fortes e corpos femininos sensuais. Na maioria das vezes, pessoas seminuas, vivendo uma história pronta, com começo, meio e final feliz, como se a vida fosse assim.
- Nos shows, a eletrônica, os dançarinos e a iluminação ajudam a disfarçar os limites das vozes dos cantores. O gelo-seco cria a emoção que a canção não é capaz de criar. O volume alto do som empurra todo mundo para o balanço de músicas sem sentido e, muitas vezes, malfeitas, mas se trata do cantor ou cantora que todos escutam. A pirataria, por sua vez, apenas reforça a indústria cultural, barateando o produto e permitindo, assim, maior acesso à cultura de massa e a seus reduzidos valores.
- Na televisão, o artista que se confessa engajado num programa acaba vendendo ilusões nas propagandas do intervalo, vampirizando aposentados e pensionistas, prometendo empréstimos a juros baixíssimos; "os menores do mercado".

Dessa maneira, ao trocar o pensar pelo sentir, os indivíduos passam a compor um mosaico, construído com pedrinhas das ideologias vinculadas nos sistemas de mass media (meios de comunicação de massa). Renunciando à construção de si, funcionam como cópias de máscaras, vendo-se apenas montagens, não realidades. Com isso, assumem como seus, os desejos que são criados pela propaganda: compre isto para ser assim; seja interessante sendo assim ou - mais sinceramente - você é aquilo que você pode pagar; você não se adapta ao modelo, não serve etc.

No entanto, as pessoas acabam sofrendo por não terem as falsas maravilhas que vêem nos meios de comunicação ou por serem diferentes do modelo de homem ou mulher anunciado pela propaganda. E isso também inclui de modo decisivo a criança, fazendo com que a sensação de sofrimento e frustração comece na infância, com os brinquedos caros que não se podem comprar, terminando na velhice esquecida, pois é da juventude que a televisão gosta e ensina os telespectadores a gostar.
Quase todas as mercadorias que estão à venda - música, dança, imagens, cheiros, sabores, roupas - trazem consigo a ideia de um estilo, que deve ser comprado ou - se isso não for possível - imitado.
Com a indústria cultural, além das artes, a religião e o esporte também viraram produtos. As pessoas deixam de praticar a religião e o esporte para assisti-lhes pela televisão. Para encontrar o sagrado, não é mais necessário estar junto com os demais fiéis e fazer orações com eles, basta ligar a televisão ou o rádio no horário marcado e será possível ter o sagrado em domicílio. Com o esporte, é mais fácil comer pipoca à frente da TV do que ir ao estádio ou jogar aquela "pelada" com os amigos. Como se vê, todas as emoções estão à venda, mas duram pouco para que voltemos a comprar outras.

1 - Para Adorno e Horkheimer, o que aconteceu após o Iluminismo?
2 – Explique Razão instrumental e cultura de massa, segundo Adorno e Horkheimer.
3 – Compare as duas frases a seguir e conclua de acordo com o seu entendimento o que o autor pretende demonstrar?
a) A postura elegante do indivíduo exibido numa cena determinada é algo que se produz em série;
b) As fechaduras Yale, que só por frações de milímetros se distinguem umas das outras.



quinta-feira, 13 de junho de 2013

Mitologia e Filosofia da Religião.

O que é o amor?
Poetas e filósofos da Grécia Antiga, no período que abarca os séculos VIII, VII e VI a.C. registraram diferentes interpretações para compreender o amor e sua importância para os seres humanos.
Hesíodo, poeta grego do século VIII a.C. escreveu uma obra denominada Teogonia, na qual descreve em poemas a origem dos deuses gregos. Para ele, o deus do amor, Eros, era filho do primeiro deus manifesto no mundo: deus Caos. No poema de Hesíodo, Eros é o deus de extrema beleza e capaz de organizar o mundo, fazendo com que os seres saiam do caos e construam o cosmo. Em grego antigo, caos significa o início sem ordem e cosmo é o mundo organizado, Eros é o deus capaz de unir os seres e de organizar o mundo.
Porém, na própria Antiguidade grega, há uma outra interpretação para a origem e o papel deste deus. Posterior à obra de Hesíodo, outro modo de interpretar o amor está registrado no diálogo O banquete, de Platão, segundo o qual o amor emana de um deus cujos pais são Poros (deus identificado como Recurso, por sua capacidade de encontrar recursos materiais) e Penia (deusa identificada como Pobreza). No dia do nascimento de Afrodite, deusa da beleza, Poros e Penia se encontraram e conceberam Eros, deus que vive com necessidade do outro, com necessidade de superar sua condição de um ser que nada tem e ao mesmo tempo um deus inteligente, inventivo, que por ser concebido no dia do nascimento de Afrodite, era belo, capaz de conquistar e de unir-se aos outros seres.
A associação de Eros à deusa Afrodite interpretada por poetas posteriores a Hesíodo como uma relação de mãe e filho. Há uma tradição bastante divulgada sobre a mitologia grega que apresenta Eros como filho de Hermes e Afrodite.
A seguir, um fragmento do diálogo “O Banquete”, de Platão, com sua interpretação para a origem e o significado do amor.

O banquete (o amor, o belo)
"[...] Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobre e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois vinho ainda não havia – penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida. terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá.[...]" (p. 21).
Um mito é uma narrativa que trata de algo sem necessariamente submeter-se às formas lógicas, como nas ciências. Em geral, os mitos estão envolvidos com a religião dos povos e com as crenças das pessoas. 
Ernest Cassirer, no livro A filosofia das formas simbólicas, desenvolve profunda reflexão sobre os mitos. Para ele, o mito seria a primeira forma de interpretação do mundo, o que deu lugar, depois, à religião, sem que seja superior. Todo o contato do homem com a natureza e com os outros homens é realizado por meio de símbolos. O homem toca o mundo pelos signos, ele os inventa e deles tira o sentido das coisas.
Desde os primórdios da história, o homem acredita e representa suas crenças e suas visões do mundo. Os símbolos são a formas que o homem usa para representar sua vida. Por exemplo:
·         Quando falamos à pessoa amada você é tudo de que meu coração precisa, é fácil entender que estamos dizendo que amamos e que sofreremos se não formos correspondidos.
·         Quando uma criança pega algum objeto que estava no chão e coloca na boca, dizemos caca! - usamos um símbolo (uma palavra) que representa a sujeira.
Os símbolos são partilhados por várias pessoas, mas também podem ser muito pessoais, acontecendo o mesmo com os significados. Lembre-se de que o signo é a representação dos sentidos de algo: pode ser uma imagem, um som, um cheiro, um sabor, um gesto, uma temperatura, uma dança. O significado é o "conteúdo" desse signo, a ideia que está por trás daquilo que se apresenta para as pessoas ou para si mesmo.
Sobre o mito anterior, ainda que Cassirer faça uma crítica ao tipo de uso que Platão fez do mito, podemos perceber que se trata de uma narrativa simbólica, e que cada símbolo ou signo corresponde a um ou mais significados no mundo.

Leiam o texto e respondam as seguintes questões:
1 - Explique o significado de Caos, Cosmo e Eros, segundo o texto.
2 – Explique o modo de interpretar o amor que está registrado no diálogo “O banquete”, de Platão.
3 - Por que, o homem é um ser simbólico, segundo Cassirer?
4 - mencionem outros signos observados em seu caminho para a escola, sempre indicando o significado deles.

5 - O que é um signo?

Prof. Manoelito

terça-feira, 11 de junho de 2013

O indivíduo segundo - Max Stirner - O indivíduo e a psicanálise - Freud

Conhecer os próprios limites e a artificialidade de objetivos permite o desenvolvimento da liberdade. Sua individualidade é ou não conduzida por forças que lhes são externas, principalmente em função de objetivos específicos de lucro e domínio.
Vamos discutir as seguintes questões: Todos nós somos um pouco egoístas?; O que fazer com nosso egoísmo?; Devemos assumi-lo ou lutar contra ele?

Para Stirner, o homem é um ser egoísta, embora não saiba o que fazer com seu egoísmo. Assim, o pensador propõe que cada um deve assumir seu egoísmo, tornando-se dono de si mesmo.
Quando as pessoas procuram se libertar do egoísmo servindo a Deus, na verdade acabam servindo aos líderes religiosos e a si mesmos, de maneira parcial. Deus é uma ideia para o individuo, independentemente de existir ou não. O homem só serve a ele por pensar que Deus existe, e será feliz assim. Quando as pessoas procuram servir à sociedade, elas acabam servindo a lideres políticos, pois a sociedade ou a nação também são ideias. Quando as pessoas procuram trabalhar, cada vez mais e melhor, para servir à honestidade; na verdade estão servindo os empregadores.
Portanto, as ideias de Deus e de nação são afastamentos parciais de nós mesmos. Quando acreditamos que somos seres espirituais, feitos por e para as ideias, achamos que devemos segui-las. Desse modo, pensamos egoisticamente: vou servir a Deus, porque lucrarei com isso indo para o céu, ou vou servir à sociedade, porque terei prestígio e serei considerado bom. No entanto, se chegássemos à conclusão de que somos corpo, então serviríamos a nós mesmos em totalidade.
A sociedade cristã e moderna procura criar um indivíduo com aparência de livre, mas que, no fundo, é escravo da razão, da fé, ou do Estado. Todas essas instâncias e entidades prometem a liberdade, desde que renunciemos de alguma forma a nós mesmos, pois não existe liberdade interior, havendo somente aquela que é vivida longe de qualquer forma de servidão.
Então, quem somos nós? Stirner responde afirmando que somos um poço e não devemos ouvir as vozes da consciência, nem da sociedade e muito menos de Deus, pois elas escondem egoístas que lucram com isso. Desse modo, o egoísmo é a chave para vivenciarmos definitivamente desejos, pois - se for para sermos escravo de alguém, então que o sejamos de nós mesmos.

Como seria a sociedade?
Se cada um assumisse seu egoísmo, fazendo o bem aos outros por interesse (eu faço você feliz, para você me fazer feliz), não haveria intrigas nem lutas, pois cada um seria tão diferente do outro, a ponto de não poderem sequer discordar. O problema das intrigas e das lutas é que nós nos imaginamos parecidos com os outros e agimos por egoísmo disfarçado, adormecido. Julgamos, ainda, os outros como falsos, quando nós também somos. Por isso, nem realizamos nossos desejos, nem alcançamos nossos ideais.

O indivíduo e a psicanálise

Analisando pessoas com uma doença chamada histeria, cujos sintomas se confundem com uma espécie de "possessão demoníaca", como falta de visão, desmaios, tonturas, paralisia, pânico e ansiedade sem causa física aparente, Freud descobriu que ela se tratava de uma doença causada pela autorrepressão.
Autorrepressão de quê? De impulsos considerados dolorosos, terríveis ou vergonhoso: para aquele indivíduo. Freud concluiu, portanto, que era essa repressão que as pessoas faziam contra os próprios impulsos que causava a histeria. Esses impulsos ficariam fechados, isolados no que Freud chamou de inconsciente.
O inconsciente está por trás de grande parte de nossas fantasias. Ele gera nossas lembranças e permite que nossa consciência tenha acesso a informações importantes, como a memória de nomes, datas, lugares, sensações. No entanto, mais do que isso, o inconsciente é responsável também por esquecimentos, lapsos, distrações, confusão de ideias, erros nas sensações, atitudes desastrosas, associação de ideias diferentes.
A cultura ocidental ignorou o inconsciente e supervalorizou a consciência. Entretanto, independentemente disso, o inconsciente está sempre em atividade no dia-a-dia, criando, por exemplo, os sonhos. Por isso, ao interpretar o sonho, seria possível chegar a alguns conteúdos do inconsciente, conhecendo um pouco aquilo que reprimimos.

A libido
Para Freud, o "eu" de cada um é uma parte da Biologia. Nosso cérebro é um corpo, e este corpo é o lugar onde nós acontecemos. Somos inseparáveis. É importante frisar Freud não tinha uma visão espiritualista do homem, mas integral, materialista e científica.
O homem biológico nasce, cresce, alimenta-se, se reproduz e morre. Mas, para se reproduzir, ele tem uma força natural que se desenvolve com todo o seu ser desde a infância. É a libido, a força do instinto sexual, que não apenas opera no ato sexual, mas na própria formação do desejo. Assim, como todos os instintos, a libido está em nossa formação individual. Nas sociedades como a nossa, nas quais aprendemos a esconder o corpo desde crianças, e nas quais os valores religiosos associam sexo a pecado, ocorre uma repressão e uma inibição com relação ao corpo e ao sexo.
Essas sementes de repressão na infância podem se tornar uma neurose no adulto. Os desejos reprimidos, muitas vezes, são manifestos de forma indireta, por meio de sonhos ou ações que aparentemente não têm a ver com o objeto do desejo reprimido. Por exemplo, se desejarmos determinado objeto, em vez de sonhar diretamente com ele, podemos sonhar com objetos parecidos ou análogos. Perto de uma pessoa por quem sentimos atração, podemos nos atrapalhar, tropeçar, esquecer palavras, corar ou até mesmo mostrar desprezo pela pessoa, criando um ódio aparentemente desmotivado e sem sentido. Da mesma forma, isso funcionaria com outros instintos.

A estrutura do mecanismo psíquico
Nosso aparelho psíquico apresenta, para Freud, três estruturas:
a) Id: constituído pelos impulsos múltiplos, associado ao princípio de prazer e ao inconsciente.
b) Ego: contato com a realidade, associado à consciência de si como indivíduo.
c) Superego: internalização das regras morais, associado à consciência sobre os limites oferecidos pelo outro à realização do princípio de prazer.
O ego é nossa fachada; ele tem de estar constantemente em negociação com o Id, que nos impulsiona pelos desejos, e com o superego, que nos reprime de dentro para fora. O id quer prazer imediato, mesmo que isso custe a própria vida.
Os impulsos são agressivos. Para contê-los, além da repressão direta, o princípio da realidade compele a libido a usar sua força para outras atividades, como a arte e a produção do conhecimento, por exemplo. Isso acontece porque todos nós trazemos uma agressividade que deve ser domada para que possamos viver em sociedade. A luta pelo prazer seria, assim, a destruição da civilização; por isso, inventamos a arte, a religião e a moral, com o que podemos negar os impulsos e seus prazeres, a fim de conviver na sociedade.
Nós negamos os prazeres por um pouco de segurança, e não para sofrermos em demasia. No entanto, acontece que a negação social pode ser tão agressiva que o indivíduo não conseguirá ter prazeres suficientes na vida, desenvolvendo, em consequência, as neuroses, as doenças psíquicas.
Como podemos lidar com nossos impulsos de maneira saudável? Além disso, como os esportes, as artes. As morais e as religiões nos ajudam a enfrentar os desejos mais violentos e as repressões mais sufocantes?

Para Freud, nós somos animais que desejam e querem o poder para conseguir os prazeres. O que acontece, muitas vezes, é que esse poder é destrutivo, podendo atingir a nós mesmos e aos outros. Mais ainda, quando a sociedade tenta reprimir os desejos, acaba muitas vezes sufocando completamente as pessoas. Para resolver esses impasses, foram inventados os esportes e as artes, as morais e as religiões.

Leiam o texto e respondam as seguintes questões:

1 - Para Stirner, o que é o homem e o que cada um deve fazer?
2 - O que acontece quando as pessoas procuram se libertar do egoísmo servindo a Deus, segundo Stirner?
3 - Como a sociedade cristã e moderna procura criar o indivíduo?
4 - Como seria a sociedade, se cada um assumisse o seu egoísmo?
5 - Segundo Freud, qual a causa da histeria?
6 - O que diz Freud sobre o inconsciente?
7 - Qual a relação entre impulso e repressão do impulso em Freud?
8 - Explique o "eu" de cada um segundo Freud.
9 - Explique "a libido" segundo Freud.
10 - Porque ocorre a repressão nas sociedades como a nossa, Segundo Freud?
11 - Para Freud, o que somos nós? Explique.
12 - Segundo Freud, quais são as estruturas da psique humana? Explique.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Homem como ser político


O que pensam os estudantes sobre a palavra política?

Como essa palavra é muito presente em nosso cotidiano, certamente você já a ouviu ou já pensou nela com diferentes significados.
Frase  1: O voto não deveria ser obrigatório, porque eu nem gosto de política; por que tenho de ir votar?
Frase 2: O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é uma política pública que pode ajudar na mudança dos sistemas de ingresso ao Ensino Superior.
Frase 3: A participação política favorece a escolha dos melhores candidatos aos cargos legislativos e executivos.
• Conversando com seus colegas, discuta os diferentes significados da palavra política em cada uma das frases.
• Depois, registre individualmente um texto sobre a presença da palavra política em sua experiência de vida, em uma folha à parte.
Como teria surgido a referência à política na história da Filosofia?
A origem etimológica da palavra localiza-se no grego antigo e traz polittique e politikós, sugerindo arte de governar a cidade e aquele que é da cidade. Em Platão e Aristóteles, a palavra política está associada à vida na cidade.
Um dos diálogos de Platão (428 a.C.- 347 a.C.) apresenta uma das teses mais antigas sobre a arte da política. Além de antiga, ela tornou-se um marco na história da Filosofia. O diálogo chama-se Protágoras, e a tese sobre a virtude política encontra-se no trecho que ficou conhecido como o Mito de Protágoras.
Um jovem chamado Hipócrates pede que Sócrates o apresente a Protágoras (480 a.C.-410 a.C.) na esperança de tornar-se seu discípulo, por quem tem grande admiração. Sócrates leva Hipócrates a uma reunião, na qual Protágoras se exibe para uma pequena platéia de atenienses.
A seguir, um resumo da primeira parte do diálogo.

Protágoras
Sócrates: Vou começar, Protágoras, pela finalidade da nossa visita. Hipócrates, aqui presente, deseja entrar para a tua escola e diz que gostaria de conhecer as vantagens que obteria com teu ensino. Eis tudo o que temos a dizer.
Protágoras: Meu jovem, a vantagem que obterás com minhas lições é que, depois de passares um dia comigo, voltarás para casa melhor do que eras; no dia seguinte a mesma coisa, e assim, todos os dias farás progressos, sempre para melhor. Sócrates então pede que Protágoras seja mais preciso na sua resposta e este acrescenta: “Eu só ensino a meus discípulos a ciência que eles procuram; esta ciência é a prudência, que lhes ensinará, nos negócios domésticos, a melhor forma de administrar a própria casa, e nos negócios da cidade (pólis) os tornará melhores para agir e falar por ela”.
Sócrates: Terei compreendido bem tua explicação? Referes-te então à arte política e dedicas-te a formar bons cidadãos?
Protágoras: Isso mesmo, Sócrates; esta é a ciência à qual me dedico.
Sócrates, então, passa a questionar Protágoras sobre a real possibilidade de se ensinar a virtude da mesma forma como se ensinam outras artes, como a da medicina, ou a de tocar flauta, e desafia Protágoras a demonstrar que ensinar a arte da política é, de fato, possível.
Protágoras: Pois bem, Sócrates. Mas, o que preferes? Que faça a minha demonstração contando uma fábula, como um avô conta histórias aos netos, ou discutindo a questão, ponto por ponto? Como os presentes ao diálogo responderam que Protágoras tratasse a questão como preferisse, Protágoras responde: “Parece que contar a fábula será mais agradável para todos”.
E, assim, passa a contar o que se tornou célebre como o “Mito de Protágoras”.

Eis um resumo da história:
[...] Os deuses haviam terminado a criação das várias criaturas (animais) do mundo. Mas ainda tinham que dar-lhes vida. Para tanto, chamaram dois irmãos – Prometeu e Epimeteu – para realizarem a seguinte tarefa: distribuir os dons para as diversas espécies, de maneira equitativa para que se garantisse que uma espécie não acabasse por destruir a outra. Epimeteu convence o irmão a deixá-lo fazer a distribuição dos dons e depois chamar Prometeu para conferir a obra. Epimeteu fez a partilha, dando a uns a força, e não a velocidade; a outros, a velocidade, mas não a força; deu recursos a alguns, e não a outros, a quem doou outros meios de sobrevivência. [...] Estes cuidados visavam evitar a extinção de cada raça.
Quando Prometeu veio examinar a distribuição dos recursos, viu as várias criaturas bem providas de tudo, enquanto o homem encontrava-se nu, descalço, sem proteção ou armas. Sem saber o que fazer, roubou dos deuses o domínio do fogo e das artes e presenteou-o ao homem. Assim, o homem ficou com as técnicas para se conservar vivo, mas sem a arte da política.
Por estes favores aos homens, parece que Prometeu foi severamente punido mais tarde. Com o que tinha, o homem articulou a linguagem, construiu casas, inventou a agricultura.
Mas, isolados, continuavam frágeis diante dos perigos da natureza. E, quando procuravam reunir-se em segurança, fundando cidades, faziam mal uns aos outros, pois não tinham os saberes da política, e assim, se dispersavam e acabavam por morrer.
Então, Zeus, temendo que a nossa espécie se extinguisse, encarregou Hermes de levar aos homens os dons do pudor e da justiça como norma para a convivência a ligar os homens pelos laços da civilidade.
Depois de estabelecer que o pudor e o senso da justiça fossem repartidos a todos os homens sem exceção, ordena que, em seu nome, todo homem incapaz de pudor e justiça ‘seja exterminado como se fosse uma peste na sociedade’.
E assim, a humanidade sobreviveu e progrediu. Em seguida, Protágoras apresenta seus argumentos, tratando a questão ‘ponto por ponto’. Afirma que, em relação às artes, concorda que os profissionais não admitam que amadores dêem palpite. ‘Mas, quando se delibera sobre política, que se apóia no senso da justiça e na temperança, é adequado admitir todo o tipo de gente a opinar. Pois é necessário que todos tenham parte na virtude da civilidade. Senão, não poderia existir a cidade. ’
Depois, quanto à possibilidade de se ensinar a virtude política, oferece outros argumentos: ‘No ensino da virtude, a tarefa dos pais começa desde os primeiros anos e estende-se até a morte [...]. Cada ato, cada palavra serve de ocasião para uma lição: ‘Isto é justo, dizem-lhe, aquilo injusto; isto é belo, aquilo é vergonhoso; isto agrada aos deuses, aquilo desagrada; faça isto, não faça aquilo’. [...] Depois, os pequenos são mandados à escola [...]. Ali conhecem as muitas normas, muitas histórias de louvor aos heróis antigos. É que se espera que a criança os imite e busque se assemelhar a eles. ’
‘Pelo fato de todos ensinarem a virtude, cada um na sua oportunidade, parece que ninguém a ensina. É o mesmo que se dá ao procurar um professor específico para ensinar a falar o grego (nossa língua materna). Não existe tal professor. ’
Depois da exposição da fábula e dos argumentos, Sócrates vira-se para o candidato a discípulo de Protágoras e exclama: “Hipócrates, filho de Apolodoro, como agradeço me fazeres vir a este encontro! Por nada no mundo trocaria o prazer de ter ouvido este discurso de Protágoras”.

Reflexão a partir da leitura
1. Qual é a ciência apontada por Protágoras para bem administrar a vida doméstica e a vida nas cidades?
2. Além dessa, ou a complementá-la, quais as outras condições para o exercício da boa convivência nas cidades?
3. De que forma essas condições se complementam? Apresente exemplos cotidianos.
4. Protágoras afirma, no diálogo, que a política assim concebida é algo possível de ser ensinado. O que você pensa a respeito? As virtudes destacadas no diálogo apresentado podem ser ensinadas?

Um debate muito polêmico
A partir de subgrupos, converse sobre as respostas das atividades anteriores e prepare um debate sobre a solução indicada no mito narrado por Protágoras, a saber, a ordem de Zeus para que todo homem incapaz de pudor e justiça fosse exterminado como uma peste na sociedade.
Como o seu grupo se posiciona a esse respeito?
Ao final do debate, registre as principais conclusões do grupo.

Política como parte da natureza humana
Este texto é importante para o contato com a contribuição de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), que escreveu uma obra denominada Política, organizada em oito livros. Destacamos o Livro primeiro para leitura, pois nele, o autor defende a ideia de que a política integra a natureza humana, decorrente de outras características, também definidoras da espécie humana, que são o dom da fala e a necessidade de associação para além do núcleo familiar, constituindo as vilas, as cidades, os Estados.

Política
“[...] Se as primeiras comunidades são um fato da natureza, também o é a cidade, porque ela é o fim daquelas comunidades, e a natureza de uma coisa é o seu fim: aquilo que cada coisa se torna quanto atinge seu completo desenvolvimento, nós chamamos de natureza daquela coisa, quer se trate de um homem, de um cavalo ou de uma família.
Além disso, a causa final e o fim de uma coisa é o que é o melhor para ela; ora, bastar-se a si mesma é, ao mesmo tempo, um fim e um bem por excelência.
Essas considerações tornam evidente que a cidade é uma realidade natural e que o homem é, por natureza, um animal político. E aquele que, por natureza e não por mero acidente, não faz parte de uma cidade é ou um ser degradado ou um ser superior ao homem [...] um tal homem é, por natureza, ávido de combates, e é como uma peça isolada no jogo de damas. É evidente, assim, a razão pela qual o homem é um animal político em grau maior que as abelhas ou todos os outros animais que vivem reunidos. Dizemos, de fato, que a natureza nada faz em vão, e o homem é o único entre todos os animais a possuir o dom da fala. Sem dúvida os sons da voz exprimem a dor e o prazer e são encontrados nos animais em geral, pois sua natureza lhes permite experimentar esses sentimentos e comunicá-los uns aos outros. Mas quanto ao discurso, ele serve para exprimir o útil e o nocivo e, em consequência, o justo e o injusto. De fato, essa é a característica que distingue o homem de todos os outros animais: só ele sabe discernir o bem e o mal, o justo e o injusto, e os outros sentimentos da mesma ordem; ora, é precisamente a posse comum desses sentimentos que engendra a família e a cidade.
A cidade, portanto, é por natureza anterior à família e a cada homem tomado individualmente, pois o todo é necessariamente anterior à parte; assim, se o corpo é destruído, não haverá mais nem pé nem mão, a não ser por simples analogia, como quando se fala de uma mão de pedra, pois uma mão separada do corpo não será melhor que essa. Todas as coisas definem-se sempre pelas suas funções e potencialidades; por conseguinte, quando elas não têm mais suas características próprias, não se deve dizer mais que se trata das mesmas coisas, mas apenas que elas têm o mesmo nome. É evidente, nessas condições, que a cidade existe naturalmente e que é anterior aos indivíduos, pois cada um destes, isoladamente, não é capaz de bastar-se a si mesmo e está, em relação à cidade, na mesma situação que uma parte em relação ao todo; o homem que é incapaz de viver em comunidade, ou que disso não tem necessidade porque basta-se a si próprio, não faz parte de uma cidade e deve ser, portanto, um bruto ou um deus.”

Por que o homem é naturalmente um ser político segundo a argumentação de Aristóteles?


Prof. Manoelito

terça-feira, 28 de maio de 2013

O indivíduo possessivo - John Locke


Para Locke, pensar a vida humana em períodos primordiais, os quais ele e outros autores como Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau chamaram de estado de natureza, pode favorecer a compreensão sobre a necessidade humana de romper com o estado de natureza e criar o estado de sociedade ou de cultura.

Locke entendia que, para compreender o poder político, fazia-se necessário uma reflexão que procurasse responder ao que teria levado os homens a sair do estado de natureza e passar a viver em sociedade com a organização de governos e leis para regular suas relações.

 

De acordo com sua filosofia, todos os homens nasciam com três direitos: liberdade, igualdade e garantia de vida. No estado de natureza eram livres, porque não precisavam pedir permissão ou depender da vontade de outro homem; eram iguais, pois nenhum possuía nada a mais que outro, recebendo todos as mesmas vantagens da natureza e as mesmas faculdades. A garantia de vida era dada por uma lei própria do estado de natureza, segundo a qual, por serem iguais e independentes, os homens não deveriam prejudicar uns aos outros e poderiam punir quem viesse a ameaçar a vida deles.

No estado de natureza, para Locke, os homens vivem em situação de paz. Porém, ele entende que esse estado de paz é ameaçado quando um homem coloca outro sob seu poder e o submete à sua vontade. Rompe-se, assim, o estado de natureza e instala-se o estado de guerra. Para recuperar o estado de paz, é necessário que os homens se unam em um contrato por meio do qual evitem os inconvenientes do estado de guerra.

Nesse contrato, os homens concordaram que, para evitar que eles fossem usurpados, deveriam eleger um governo, ao qual caberia defendê-los. Assim, todos deveriam respeitar a vida, a propriedade e a liberdade, e o governo ou Estado seria responsável pela manutenção da paz. O governo deveria lutar contra quem quer que tentasse desrespeitar a condição natural de igualdade e liberdade. A partir disso, para Locke, começou a civilização.

 

Direito Natural e Direito Positivo

 

O Direito Natural seria uma derivação da razão correta - assim como a natureza tem suas leis, o homem também teria, por natureza, as suas. Já o Direito Positivo seria o conjunto de leis que os homens criam para conviver em sociedade.

Em Locke, a liberdade, a propriedade e a vida são constitutivas do Direito Natural de cada indivíduo. No entanto, para mantê-lo, o homem precisa conviver com outros que têm o mesmo Direito Natural; então, para que o convívio seja possível, os homens necessitam produzir leis positivas - no sentido de inventadas - para a manutenção desses mesmos direitos naturais. Assim, a partir do Direito Natural de cada um, cria-se o Direito Positivo a que todos têm de obedecer.

Na filosofia de John Locke, há a valorização do indivíduo como agente histórico e jurídico. Além disso, em razão do empirismo, o indivíduo também é responsável pela aquisição e produção do conhecimento, sendo a felicidade, sem dúvida, o fim último da realização individual.

Por isso, toda ação depende necessariamente do indivíduo. O tipo de governo que ele deixa existir, o tipo de relações sociais sob as quais viverá; enfim, sua felicidade ou tristeza não compete mais ao rei ou ao senhor feudal, mas somente ao indivíduo.

 

Questões para reflexão

 

1.      Se cada um é livre, tem o direito à propriedade e à defesa da própria vida, como nós não acabamos em uma situação de guerra de todos contra todos?

2.      Caso um homem não tenha o que ele precisa, o que o impede de tomar de outro o que lhe falta?

3.      Por que tenho de respeitar a liberdade do outro?

 

 

Exercício

 

Imaginem vocês participando de uma excursão para algum lugar do Brasil, o avião em que vocês viajavam teve de fazer pouso forçado em uma ilha deserta e vocês sobreviveram apenas com a roupa do corpo. Durante anos, brigaram por alimentos, água e relacionamentos amorosos. Enfim, depois de perderem a esperança de ser resgatados, resolveram viver em paz, em busca da felicidade.

Para que vivam em paz, vocês terão de se separarem em vários grupos, cada grupo devem criar uma lei para cada um dos seguintes temas:

 

1.      Partilha do alimento, da água, da terra para plantio, da pesca e da caça (lembre-se de que não há muito desses recursos na ilha).

2.      Casas, madeira para construção, folhas de árvores e cipós para amarração.

3.      Família, educação dos filhos, casamento e separação.

4.      Crimes, roubo, homicídio, mentiras, constituição de tribunal de investigação.

5.      Trabalho, comércio, sistemas de trocas e de valor. Por exemplo, como determinar o valor de cinco peixes grandes em relação à construção de uma cabana.

 

Ao final, o representante de cada grupo deve apresentar, em voz alta, as leis criadas, discutindo-as com a classe, com base nos princípios filosóficos de Locke, sempre procurando destacar a importância da participação dos indivíduos na discussão e na elaboração das normas que devem servir para todos.

 

 

 

 

Prof. Manoelito

 

 

 

sábado, 25 de maio de 2013

Formas de conhecimento


A mitologia, a religião e a ciência são formas de conhecer o mundo. São modos do conhecimento, assim como o senso comum, a filosofia e a arte. Todos eles são formas de conhecimento, pois cada um, a seu modo, desvenda os segredos do mundo, explicando-o ou atribuindo-lhe um sentido. Vamos examinar mais de perto cada uma dessas formas de conhecimento.
O mito proporciona um conhecimento que explica o mundo a partir da ação de entidades - ou seja, forças, energias, criaturas, personagens - que estão além do mundo natural, que o transcendem, que são sobrenaturais.

Assim como o mito, a religião, ou melhor, as religiões também apresentam uma explicação sobrenatural para o mundo. Para aderir a uma religião, é obrigatório crer ou ter fé nessa explicação. Além disso, é uma parte fundamental da crença religiosa a fé em que essa explicação sobrenatural proporciona ao homem uma garantia de salvação, bem como prescreve maneiras ou técnicas de obter e conservar essa garantia, que são os ritos, os sacramentos e as orações.

A ciência procura descobrir como a natureza "funciona", considerando, principalmente, as relações de causa e efeito. Nesse sentido, pretende buscar o conhecimento objetivo, isto é, que se baseia nas características do objeto, com interferência mínima do sujeito.


O senso comum ou conhecimento espontâneo é a primeira compreensão do mundo, baseada na opinião, que não inclui nenhuma garantia da própria validade. Para alguns filósofos, o senso comum designa as crenças tradicionais do gênero humano, aquilo em que a maioria dos homens acredita ou devem acreditar.

A filosofia, Para Platão, é o uso do saber em proveito do homem. Isso implica a posse ou aquisição de um conhecimento que seja, ao mesmo tempo, o mais válido e o mais amplo possível; e também o uso desse conhecimento em benefício do homem. Essa definição, porém, exige a uma definição de benefício, que por sua vez exige uma definição de Bem. Para saber o que é o Bem, entretanto, também é necessário descobrir o que é a Verdade. Alguns filósofos, definem a filosofia como a busca do Bem, da Verdade, do Belo e de como os homens podem conhecer essas três entidades. Portanto, a filosofia toma para si a árdua tarefa de debater problemas ou especular sobre problemas que ainda não estão abertos aos métodos científicos: o bem e o mal, o belo e o feio, a ordem e a liberdade, a vida e a morte.






Prof. Manoelito

Discurso filosófico e discurso religioso: aproximações e diferenças

A Filosofia é um campo que sofreu e sofre preconceitos. A Religião, por sua vez, também é um tema esquecido na trajetória escolar de muitas pessoas. Esse esquecimento é evidenciado, sobretudo, no Ensino Superior. Raras são as oportunidades escolares de conhecer e compreender melhor as diferentes religiões: suas origens, histórias, valores, compromissos. Raras são as oportunidades escolares de construir uma atitude filosófica com relação à religião. Neste texto, vamos pensar as possibilidades de relacionamento entre Filosofia e Religião, com base no pressuposto de que ambas representam uma elaboração de extrema importância para a humanidade, sem valorizar uma mais do que a outra.
Vamos considerar e rever algumas ideias correntes sobre a relação entre Religião e Filosofia:
·         A Filosofia como ruptura com a Religião;
·         A Filosofia como forma de pensamento superior ao pensamento religioso;
·         A Filosofia surge na Grécia em oposição ao pensamento mitológico;
·         A Filosofia como explicação do mundo diferente da explicação do mundo elaborada pela Religião.
O primeiro esforço para pensar as relações entre a Filosofia e a Religião conduz à questão sobre a origem da Filosofia. É bastante divulgada a ideia de que o modo de pensar, que hoje identificamos como próprio da Filosofia, tem origem na Grécia antiga, no final do século VII a.C. e início do século VI a.C. Atribui-se a Pitágoras (570 a.C. - 496 a.C.) o emprego da palavra "filosofia" pela primeira vez, unindo dois termos: philia ou philos (amizade) e Sophia ou sophos (saber), o que resultou em uma palavra que expressa amor pela sabedoria. Esse modo de pensar teria surgido com a necessidade de se responder a questões sobre o mundo natural e sobre os homens que não haviam sido respondidas pelo pensamento mitológico dos sacerdotes e poetas. Uma dessas questões seria: Qual é a substância essencial, mais elementar, que compõe os seres do mundo físico, da natureza material? Qual é o elemento que unifica todos os seres?
O segundo esforço para pensar as relações entre a Filosofia e a Religião é justamente o de distinguir perguntas e respostas próprias a cada um desses modos de pensar.

Sobre a origem da Filosofia como necessidade grega de se criar uma forma de pensamento que pudesse melhor explicar o mundo, deve-se considerar que egípcios, mesopotâmios, hindus e chineses, ou seja, as chamadas civilizações orientais, também criaram filosofias em períodos concomitantes ou anteriores aos primeiros filósofos gregos. Historiadores como Abel Rey - pesquisador português contemporâneo – defendem a  ideia de que não se pode afirmar que a origem da Filosofia situa-se exclusivamente na Grécia porque os próprios gregos exaltaram a sabedoria oriental. Dessa forma, o ideal é perguntarmos pela origem da Filosofia tanto no campo do pensamento oriental como no campo do pensamento ocidental.
Historiadores da Filosofia, entre os quais destacamos Werner Jaeger, defendem ainda que a Filosofia não surge em contraposição e como algo absolutamente diferente dos mitos, mas sim a partir destes, a partir de temas e preocupações predominantes no discurso religioso e nos mitos registrados em poemas como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, e nos poemas de Hesíodo, por exemplo. Os historiadores destacam vários aspectos que são comuns a ambos: preocupação dos poetas em apresentar causas e motivos das ações; esforço para descrever os fatos em uma abrangência que abarca deuses, homens, terra, céu, guerra, paz, bem e mal e a preocupação dos poetas em construir narrativas para ensinar a justiça como virtude fundamental. O mito, assim, já contemplaria a estrutura de apresentação dos fatos e os temas valorizados pela Filosofia. Se a Filosofia não é uma inovação que rompe radicalmente com o discurso próprio dos mitos, dos poemas e da religião, deve-se perguntar, então, qual é a sua novidade, qual é a sua diferença?

O discurso nos mitos apresenta-se com uma narrati­va marcada por analogias, metáforas e parábolas, enquanto, na Filosofia, o discurso apresenta-se marcado por questionamentos sucessivos a cada afirmação, por fundamentação e crítica sobre o saber afirmado.

Prof. Manoelito
A atividade proposta a seguir tem o objetivo de ajudá-los a pensar as diferenças entre um discurso e outro. Para tanto, vocês devem ler esses dois textos: um trecho da introdução da Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant (1724-1804) e uma transcrição do mito denominado Eros e Psique, narrado pela primeira vez por um escritor romano chamado Lucius Apuleius (125-164 d.C). Façam a leitura de cada um dos textos. Após a leitura identifique as diferenças entre eles. Algumas perguntas podem ajudá-los nessa direção:

1.         Qual é o objetivo de cada texto ou qual é o assunto tratado em cada um?
2.         De que forma a mensagem principal e as demais mensagens são apresentadas em cada um dos textos?
3.         Quais elementos comparecem em apenas um dos textos?


Crítica da razão pura de Immanuel Kant
Introdução
"I — Da distinção entre o conhecimento puro e o empírico
Não se pode duvidar de que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a faculdade de se conhecer, se não fosse pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem por si mesmos representações, e de outra parte, impulsionam a nossa inteligência a compará-los entre si, a reuni-los ou separá-los, e deste modo à elaboração da matéria informe das impressões sensíveis para esse conhecimento das coisas que se denomina experiência?
No tempo, pois, nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela. Mas se é verdade que os conhecimentos derivam da experiência, alguns há, no entanto, que não têm essa origem exclusiva, pois poderemos admitir que o nosso conhecimento empírico seja um composto daquilo que recebemos das impressões e daquilo que a nossa faculdade cognoscitiva lhe adiciona (estimulada somente pelas impressões dos sentidos); aditamento que propriamente não distinguimos senão mediante uma longa prática que nos habilite a separar esses dois elementos.
Surge desse modo uma questão que não se pode resolver à primeira vista: será possível um conhecimento independente da experiência e das impressões dos sentidos? Tais conhecimentos são denominados apriori, e distintos dos empíricos, cuja origem é a posteriori, isto é, da experiência.
Aquela expressão, no entanto, não abrange todo o significado da questão proposta, porquanto há conhecimentos que derivam indiretamente da experiência, isto é, de uma regra geral obtida pela experiência, e que no entanto não podem ser tachados de conhecimentos a priori.
Assim, se alguém escava os alicerces de uma casa, apriori poderá esperar que ela desabe, sem precisar observar a experiência da sua queda, pois, praticamente, já sabe que todo corpo abandonado no ar sem sustentação cai ao impulso da gravidade. Assim esse conhecimento é nitidamente empírico.
Consideraremos, portanto, conhecimento a priori, todo aquele que seja adquirido independentemente de qualquer experiência. A ele se opõem os empíricos, isto é, àqueles que só o são a posteriori, quer dizer, por meio da experiência.
Entenderemos, pois, daqui por diante, por conhecimento a priori, todos aqueles que são absolutamente independentes da experiência; eles são opostos aos empíricos, isto é, àqueles que só são possíveis mediante a experiência.
Os conhecimentos apriori ainda podem dividir-se em puros e impuros. Denomina-se conhecimento a priori puro ao que carece completamente de qualquer empirismo.
Assim. p. ex., 'toda mudança tem uma causa' é um princípio apriori mas impuro, porque o conceito de mudança só pode formar-se extraído da experiência."


Eros e Psique
Era uma vez um rei que tinha três filhas. A mais nova. de nome Psique, destacava-se por sua beleza. Dizia-se até que Afrodite - a deusa da beleza - não era tão bonita quanto Psique, cujo nome em grego antigo significa alma.
Os homens deixaram de cultuar a deusa Afrodite para adorar Psique.
Afrodite ofende-se com esta situação e pede a seu filho Eros. o deus do Amor. para preparar uma vingança. Ele ficou tão maravilhado ao ver Psique que não conseguiu cumprir a ordem da mãe. Enquanto Eros sofria por não conseguir atender ao pedido de sua mãe. Psique sem saber das inten¬ções de Afrodite, esperava encontrar um marido. Seu pai consultou o oráculo de Apoio para ajudar

Psique a encontrar seu marido. Eros também consultou o oráculo para conseguir realizar o pedido de sua mãe.
Orientado pelo oráculo, o rei levou Psique para o alto de uma montanha na qual encontraria um monstro disposto a se casar com ela.
Também orientado pelo oráculo, Eros dirigiu-se para a mesma montanha na qual deveria se casar com Psique, sem permitir que ela visse seu rosto e fazendo-se passar por um monstro.
Embora Psique não o visse, tinha certeza de que não se tratava de nenhum monstro horroroso. A partir de então sua vida ficou assim: luxo, solidão e vozes que faziam suas vontades durante o dia e, à noite, a voz de seu amor. Mas a proibição de ver o rosto do marido a intrigava. E a inquietação aumen¬tou mais ainda quando o misterioso companheiro avisou que ela não deveria encontrar sua família nunca mais, pois se assim fosse coisas terríveis começariam a acontecer. Ela não se conformou com isso e, na noite seguinte, implorou a permissão para ver pelo menos as irmãs. Contrariado, mas com pena da esposa, ele acabou concordando. Assim, durante o dia, quando ele estava longe, as irmãs foram tra¬zidas da montanha pela brisa e comeram um banquete no palácio. Como temia Eros, a alegria que as duas sentiram pelo reencontro logo se transformou em inveja e elas voltaram para casa pensando em um jeito de acabar com a sorte da irmã. Nessa mesma noite, no palácio, aconteceu uma discussão. O marido pediu para Psique não receber mais a visita das irmãs e ela, que não tinha percebido seus olha¬res maldosos, se rebelou. Além de estar proibida de ver o seu rosto ele agora queria impedi-la de ver até mesmo as irmãs? Novamente, ele acabou cedendo e no dia seguinte as pérfidas foram convidadas para ir ao palácio de novo. Mas dessa vez elas apareceram com um plano já arquitetado. Elas a con¬venceram de que o marido só podia ser um monstro e aconselharam Psique a matá-lo. À noite ela teria que esconder uma faca e uma lamparina de óleo ao lado da cama para matá-lo durante o sono. Psique caiu na armadilha. E, quando acendeu a lamparina, viu que estava ao lado do próprio Eros, o deus do amor, a figura masculina mais bonita que havia existido. Ela estremeceu, a faca escorregou da sua mão, a lamparina entornou e uma gota de óleo fervente caiu no ombro dele. que despertou, sentiu-se traído, virou as costas, e foi embora dizendo: "Não há amor onde não há confiança". Psique ficou de¬sesperada e resolveu empregar todas as suas forças para recuperar o amor de Eros, que se encontrava na casa da mãe recuperando-se do ferimento no ombro. Psique pedia aos deuses para acalmar a fúria de Afrodite, sem obter resultado. Resolveu se oferecer à sogra como serva, dizendo que faria qualquer coisa por Eros. Ao ouvir isso, Afrodite gargalhou e respondeu que. para recuperar o amor dele, ela teria que passar por uma prova. Em seguida, pegou uma grande quantidade de trigo, milho, papoula e muitos outros grãos e os misturou. Até o fim do dia, Psique teria que separar tudo aquilo. Era uma tarefa impossível e ela já estava convencida de seu fracasso, quando centenas de formigas resolveram ajudá-la e fizeram todo o trabalho. Surpresa e nervosa por ver aquela tarefa cumprida, a deusa fez um pedido ainda mais difícil: queria que Psique trouxesse um pouco de lã de ouro de umas ovelhas ferozes. Percebendo que seria trucidada, ela já estava pensando em se afogar no rio quando foi aconselhada por um caniço (uma planta parecida com um bambu) a esperar o sol se pôr e as ovelhas partirem para recolher a lã que ficasse presa nos arbustos. Deu certo, mas no dia seguinte uma nova missão a esperava. Agora Psique teria que recolher em um jarro de cristal um pouco da água negra que saía de uma nascente que ficava no alto de uns penhascos. Com o jarro na mão, ela caminhou em direção aos rochedos, mas logo se deu conta de que escalar aquilo seria o seu fim. Mais uma vez, conseguiu uma ajuda inesperada: uma águia apareceu, tirou o jarro de suas mãos e logo voltou com ele bem cheio de água negra. No entanto, a pior tarefa ainda estava por vir. Afrodite dessa vez pediu a Psique que fosse até o inferno e trouxesse para ela uma caixinha com a beleza imortal. Desta vez, uma torre lhe deu orientações de como deveria agir, e, assim, ela conseguiu trazer a encomenda. Tudo já estava próximo do fim quando foi dominada pela tentação de pegar um pouco da beleza imortal para tornar-se mais encantadora para Eros. Ela abriu a caixa e dali saiu um sono profundo, que em poucos segundos a fez tombar adormecida. A história acabaria assim se o amor não fosse correspondido. Por sorte Eros também estava apaixonado e desesperado. Ele pedira a Zeus. O deus dos deuses, que impedisse sua mãe de separá-los. Zeus então reuniu a assembléia dos deuses (que incluía Afrodite) e anunciou que Eros e Psique iriam se casar no Olimpo e que a noiva deveria tornar-se imortal. Hermes a conduziu ao palácio dos deuses e Zeus lhe ofereceu um doce que a tornou uma deusa e, por isto, imortal. Afrodite não poderia opor-se a que seu filho se casasse com uma deusa. Assim, Eros - o amor - e Psique - a alma - viveram juntos para sempre.


Prof. Manoelito

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O porque da greve


AOS PAIS, ESTUDANTES E TODA A SOCIEDADE
Os professores estaduais estão em greve por reajuste salarial, pela jornada do piso, por condições de trabalho, pelo fim da precarização do trabalho (categoria “O”), contra a privatização do Hospital do Servidor/IAMSPE, por uma jornada de trabalho que nos permita estudar e outras reivindicações.
A Greve é necessária porque o Governo Estadual não negocia e não atende nossas reivindicações. Sem negociar, decidiu propor um irrisório reajuste de 2%, mas diz que é 8%, sendo que na verdade 6% já estavam previstos desde 2011. O reajuste de 2% significa apenas 19 centavos por hora-aula para o PEB I e 22 centavos por hora-aula para o PEB II.
No mínimo o Governo deveria, além dos 2% dar mais 5% referentes ao que nos ficou devendo em 2012, ou seja, deveria nos conceder agora 13,5%.
As más condições de trabalho, jornadas estafantes, violência nas escolas e outros fatores têm provocado o adoecimento e a falta de professores nas escolas. Os estudantes e suas famílias estão sendo há muito prejudicados. A luta, portanto, é de todos.
Apóie nossa luta, ela é de interesse de toda a sociedade. Ajude-nos a pressionar o Governo Estadual a negociar e atender nossas reivindicações.